Em rigor, “um português e um marroquino sentaram-se numa esplanada tipo mezanino ao lado de uma ruína no Martim Moniz e mataram saudades”! Na quarta à noite fui ter com o Smail, de férias por Lisboa. Conhecemo-nos pela Primavera Árabe em 2012 por Rabat e nunca mais nos largámos. O Smail viveu em Lisboa de 2002 a 2004, fala um português criativo, mas irrepreensível e é do Benfica!.Este marroquino com 36 anos é um observador privilegiado dos 25 anos de reinado de Mohamed VI, que se celebrarão no próximo 30 de julho. Não se falou sobre os 25 anos ou o que fosse relacionado com o assunto, a observação é minha e decorre do “mastigar da conversa” quando já vinha no comboio para casa..E a conversa, as atenções, o espanto de Smail foi estar de novo no centro de Lisboa e não ver portugueses! De o incomodar ao ver um restaurante de cozinha sul-coreana no Martim Moniz e perguntar, “mas o que é que vos aconteceu?” Em 2003, quando Smail vivia em Portugal (com a família e por opção profissional do pai), aconteceram os atentados de Casablanca, Fouad Ali El Himma era o ministro do Interior de Marrocos e Durão Barroso primeiro-ministro de Portugal. Foi sobre os últimos 20 anos, a partir deste contexto, que pensei no regresso a casa e me lembrei uma vez mais, do que já me tinha esquecido. Da encruzilhada marroquina (no fundo magrebina e africana também) ser a disputa/tensão e procura de equilíbrios entre a tradição e a modernidade, entre o “local consciente/valorizado” e o “moderno barato”, ou ainda entre “o banho-maria e a bimby”!.Hassan II não teve opção entre querer ser amado ou temido. Foi temido, não dando também opção ao filho, em querer ser amado. O “Millenial Hassan III” terá que encontrar no século XXI um termo que conjugue ambos os conceitos, já que fisicamente obedece ao perfil do atleta, com comportamento aristocrata por educação/berço..O Smail enquadra-se na maior vitória dos últimos 25 anos de reinado MVI, sendo que se trata do conseguimento mais discreto de todos. A consolidação de uma classe média que se tornou no pilar da democracia marroquina. Esta geração “pós-anos de chumbo” foi educada no desafio, na lógica da perenidade do longo prazo, pelo desenvolvimento económico/industrial/urbano, assente na educação dentro e fora do país. Em resumo, o país tem um rumo, um projecto, o que faz os marroquinos terem razões para acordarem cedo, fazerem a cama e irem trabalhar!.O que é que isto importa, ou o que é que tem a ver connosco? Nada, só que o Smail e a mulher saíram de casa em Rabat apanharam o TGV para Tânger, de onde vieram de avião para Lisboa. À pergunta parva, “então estão a gostar?” ouvi a verdade de 25 anos resumida num, “então não filho, foi mais rápido de Tânger para Lisboa que do Cais do Sodré para Cascais!”.www.maghreb-machrek.pt Escreve de acordo com a antiga ortografia