Um confronto profundamente perigoso e complexo: os EUA e o Irão

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Estamos à beira de um conflito armado entre o Irão e os EUA? Esta é uma das grandes interrogações por estes dias. A resposta não é fácil, nem pode ser definitiva. O risco pode ser considerado iminente, na realidade. Porém, os custos para ambos os lados e para o mundo seriam de tal modo avassaladores que é necessário e urgente encontrar um entendimento entre as partes.

A mediação deveria ser feita pelos Estados da região ou pelos membros mais influentes da Organização para a Cooperação Islâmica, uns mais próximos da interpretação sunita do Islão, outros da prática xiita, desde que aceites pelos EUA e o Irão. O ideal teria sido atribuir a responsabilidade à ONU ou à Índia. Infelizmente, nem o secretário-geral da ONU, nem o primeiro-ministro da Índia têm, neste caso, a credibilidade suficiente. Narendra Modi queimou os seus cartuchos em relação ao Médio Oriente a partir do momento em que decidiu assentar o seu poder político no ataque aos cidadãos de fé muçulmana do seu país. É um autocrata que joga a carta étnica e o populismo na hora do voto para se manter no poder. Quanto a António Guterres, não pesa em Washington e é visto em Teerão como um ocidental, exterior à região e em fim de percurso. É tido como o secretário-geral das causas humanitárias e pouco mais. Para muitos, falta-lhe a dimensão política, a genica necessária para a resolução de conflitos. O facto é que Guterres teve o azar dos Távoras. Dois mandatos de Trump, cada qual ainda pior que o outro, é mesmo falta de sorte.

A verdade é que assistimos a uma escalada militar enorme no Golfo Pérsico, uma das regiões mais sensíveis ao nível mundial. Essa escalada pode dar origem a uma guerra aberta a qualquer momento. Tudo pode acontecer. Esta é uma disputa de uma enorme complexidade.

O porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln está agora no Golfo Pérsico, acompanhado pelo seu grupo de combate, que possui centenas de mísseis Tomahawk e faz uso de um grande número de caças de elite, de satélites e de drones de vigilância que seguem a par e passo o que acontece no Irão e nas suas águas mais próximas.

Além disso, os EUA contam com a presença de dezenas de milhares de militares a operar em cinco bases dispersas na região. Procedem, igualmente, ao policiamento constante de Estreito de Ormuz, uma rota fundamental para o fornecimento de petróleo, sobretudo à China, mas também à Índia. Se os EUA ou o Irão abrirem uma frente de combate nessa zona de passagem estarão a impedir, ou pelo menos, a dificultar o trânsito diário de cerca de 20% do comércio mundial de petróleo e gás liquefeito. O impacto económico dessa confrontação seria dramático, quer para a região, quer para a economia da China e de numerosos outros países.

Poucos estariam interessados numa crise desse tipo. É, no entanto, difícil acreditar que um destacamento de forças americanas com a impressionante dimensão deslocada para a vizinhança do Irão tenha apenas objetivos dissuasivos, por muito que se diga o contrário.

Do lado do Irão, a capacidade militar é bastante inferior à americana. Atualmente, depois das derrotas dos seus aliados no Líbano (o grupo Hezbolah), na Síria, no Iémen e em Gaza, a sua força estratégica assenta, acima de tudo, em três pilares: no vasto e diversificado arsenal balístico que possui, na produção de drones em grandes quantidades e na possibilidade de impedir a navegação no Estreito de Ormuz e mesmo na zona de Bab el-Mandeb, o funil marítimo que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Adém, e por extensão ao Oceano Índico. Bab el-Mandeb é uma rota vital, por onde passa tradicionalmente uma parte significativa do comércio mundial.

Na realidade, quando se pensa no Irão, é preciso ter em conta um quarto pilar: o fanatismo religioso e a respetiva ditadura feroz que sustentam o poder político iraniano. Foi essa mistura explosiva de fanatismo e desprezo pela vida humana que constituiu o esteio da bárbara repressão contra a população no mês passado, que provocou um número incalculável de vítimas. A conclusão é simples: pelos padrões do humanismo moderno, o regime dos ayatollahs vive num mundo de há 500 anos, em plena idade das trevas. Não pode ser aceite nos dias de hoje, por muito respeito que se tenha pela soberania nacional e pela política interna de cada Estado. Esta mensagem deveria ser enviada por Guterres a Xi Jinping, para lhe recordar que a soberania de cada Estado passa primeiro pelo respeito pela dignidade e os Direitos Humanos dos cidadãos.

Xi Jinping poderia, aliás, começar por ter em conta os princípios que Deng Xiaoping fez adotar após a morte de Mao Tsé-tung em 1976. Deng foi o promotor do “socialismo com características chinesas”, ou seja, o líder que modernizou a China: abriu a economia para além do controlo do Estado, permitiu o investimento estrangeiro e acabou com a agricultura da fome.

Xi Jinping aposta sobretudo no poder absoluto, como nos tempos de Mao, no capitalismo económico desenfreado, e na rivalidade e competição da China diante dos EUA, como sua marca pessoal. Está, acima de tudo, preocupado com a supremacia da China nos domínios militares, tecnológicos, económicos e geopolíticos. Por isso comete os erros de se alinhar com potências que pensam a geopolítica à moda antiga, como é o caso do Irão e da Rússia, outro dos grandes aliados da ditadura teocrática em Teerão. Xi vê o futuro como uma rivalidade entre o seu país e os Estados Unidos, o que prova que olha para os desafios globais e para a solidariedade internacional como meros trunfos no jogo geopolítico da China no tabuleiro internacional.

Se o Irão só pode contar com aliados desse calibre, a resposta à minha pergunta inicial terá de ser: haja determinação, muita diplomacia, e um respeito absoluto pelos cidadãos e pela paz.

Conselheiro em Segurança Internacional.

Ex-secretário-geral-adjunto da ONU

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