UE faz demonstração de força

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No artigo de opinião que assina no DN a salientar o quão histórico é o Acordo Comercial com a Índia, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirma, quase no fim, que “perante uma ordem mundial mais fraturada, a Europa e a Índia mostram que é possível escolher outra via, a da cooperação em detrimento do confronto”. Claro que é possível ver nesta frase, como noutras, uma crítica à chamada guerra das tarifas, lançada por Donald Trump desde que assumiu a Presidência americana pela segunda vez, fez agora um ano, e isso fica ainda mais evidente quando noutro momento diz que “a Europa não está sozinha” e acrescenta que “do Canadá à Índia, da América Latina ao Sudeste Asiático, os países procuram um modelo que preserve as políticas de abertura e, ao mesmo tempo, reduza a dependência”. Não se pode estranhar que não seja referida nem a China nem a Rússia, mas fazem falta ali os Estados Unidos, primeira economia mundial e tradicionais parceiros da Europa.

É compreensível que Von der Leyen use a palavra Europa em vez de União Europeia. Dá dimensão. E facilita passar a mensagem. Mas na verdade aqui a palavra união aplica-se bem. Se o país da presidente da Comissão é um gigante económico, e a economia alemã até ainda está acima da indiana, o mesmo não se pode dizer da maioria dos 27 Estados-membros, a começar por Portugal, o país de António Costa, o outro alto-dirigente da UE presente na fotografia da cerimónia de assinatura, em Nova Deli, com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi. Ou mais ainda da Estónia de Kaja Kallas, vice-presidente da Comissão e alta-representante para a Política Externa, que também está na Índia. Só para dar uma ideia, Maharashtra, o mais rico dos estados indianos, onde fica Mumbai, tem um PIB superior aos de metade dos países da UE.

"Se o país da presidente da Comissão é um gigante económico, e a economia alemã até ainda está acima da indiana, o mesmo não se pode dizer da maioria dos 27 Estados-membros, a começar por Portugal, o país de António Costa, o outro alto-dirigente da UE presente na fotografia da cerimónia de assinatura, em Nova Deli, com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi."
"Se o país da presidente da Comissão é um gigante económico, e a economia alemã até ainda está acima da indiana, o mesmo não se pode dizer da maioria dos 27 Estados-membros, a começar por Portugal, o país de António Costa, o outro alto-dirigente da UE presente na fotografia da cerimónia de assinatura, em Nova Deli, com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi."Rajat Gupta / EPA

Claro que a Índia é um gigante demográfico, mais de 1400 milhões de habitantes, país mais populoso do mundo desde que em 2023 passou a China. E, com taxas de crescimento anuais acima dos 6%, cada vez mais se afirma como um gigante económico, estando à beira de ultrapassar o Japão como quarta maior economia mundial, e tendo já a terceira posição, ocupada pela Alemanha, na mira a curto-prazo. Para negociar com um parceiro assim, 27 países contam muito mais do que se se apresentarem cada um por si em Nova Deli. Aliás, essa é a grande força da UE em termos globais, pois é um indesmentível gigante.

Se fosse um país, a UE seria o sétimo maior em território, o terceiro em população e o segundo em PIB. Isso confere-lhe uma voz na arena internacional se não se deixar enredar em divisões internas, o que também acontece. Divisões que têm que ver com histórias diferentes, por vezes antagónicas, e agradam a quem encara o processo de integração europeia como uma ameaça, como é o caso da Rússia, que viu três antigas repúblicas soviéticas tornarem-se membros e outras serem candidatas.

Mas também a China sabe que seria mais fácil lidar com país a país do que com um bloco unificado. E os próprios Estados Unidos não desmentem que negociações bilaterais lhes trariam alguma vantagem.

Esta força da UE quando age em bloco, seja agora a negociar com a Índia ou recentemente com os países do Mercosul, traz vantagens tanto para os grandes, como para os pequenos países, mesmo que por vezes haja setores económicos menos entusiasmados. Mas sem uma verdadeira coesão europeia, um reforço da integração bem coordenado com a salvaguarda dos interesses nacionais, ficará sempre a sensação de que os riscos, se algo correr mal na relação com os gigantes mundiais, serão sempre maiores para os pequenos e médios Estados-membros do que para os grandes.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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