Quando os historiadores olharem para 2025, recordá-lo-ão como o ano em que deixou de ser possível ignorar as fraturas da ordem mundial. Os direitos aduaneiros, os controlos das exportações e as dependências económicas tornaram-se instrumentos de pressão e, em alguns casos, armas de arremesso. Estas tendências não surgiram do nada no ano passado. Já em 2024 as barreiras ao comércio mundial tinham triplicado, mas foi em 2025 que saíram dos bastidores para o palco principal, quando a fragmentação deixou de ser um risco e passou a ser realidade.Os títulos de jornais e os canais noticiosos veicularam uma narrativa de conflito e protecionismo: de países que se voltam para si mesmos, que erigem novas barreiras e instrumentalizam a interdependência. Este relato reflete uma verdadeira mudança no mundo que nos rodeia, mas não conta a história toda e certamente não conta a história da Europa.O ano de 2026 será lembrado como o ano em que a Europa reagiu a este novo mundo, provando que é possível escolher outro caminho. Da energia à segurança, estamos a reforçar a nossa independência estratégica. E fazemo-lo sem nos escondermos atrás de barreiras tarifárias ou nos fecharmos para o mundo. A Europa é pioneira de uma via diferente: resiliência a nível interno com abertura ao exterior, porque hoje a força não se constrói pelo isolamento, mas sim pela diversificação.E a Europa não está sozinha. Do Canadá à Índia, da América Latina ao Sudeste Asiático, os países procuram um modelo que preserve as políticas de abertura e, ao mesmo tempo, reduza a dependência. A Europa está no centro deste processo, não como espetadora, mas como força motriz.No início deste ano, estive no Paraguai para a assinatura do acordo UE-Mercosul que cria um mercado de mais de 700 milhões de pessoas e une mais estreitamente a Europa e a América Latina num momento de realinhamento mundial. Estou agora em Nova Deli para concluir o maior acordo comercial jamais alcançado pela União Europeia ou pela Índia.O acordo UE-Índia beneficiará de imediato as empresas e os cidadãos europeus. A Índia representa já mais de 180 mil milhões de euros de comércio anual de bens e serviços com a UE, contribuindo para cerca de 800 000 postos de trabalho na Europa. Nos termos deste acordo, os direitos aduaneiros serão eliminados ou reduzidos em 90 % das trocas comerciais. Os exportadores europeus evitarão anualmente até 4 mil milhões de euros em direitos alfandegários e prevê-se que as exportações da UE mais do que dupliquem nos próximos anos.Mas não se trata de apenas gerir riscos em tempos conturbados. Trata-se de aproveitar as oportunidades. Este acordo é um investimento na parceria a longo prazo entre duas potências determinantes do século XXI. A Índia é o país mais populoso do mundo e a economia de mais rápido crescimento no conjunto das grandes economias. Com um crescimento anual superior a 6 %, a Índia impulsionará o crescimento mundial durante décadas. Não estamos apenas a intensificar as trocas comerciais entre ambos os parceiros: estamos a investir no nosso futuro. Este acordo proporciona as melhores condições que a Índia alguma vez ofereceu a qualquer parceiro. As empresas europeias beneficiarão de vantagens de que os seus concorrentes não poderão usufruir, pelo que estarão numa posição privilegiada para ajudar a configurar e a partilhar esse crescimento com os parceiros indianos. A Índia ganhará um parceiro fiável e de confiança para investir na sua ascensão mundial.Os agricultores europeus também beneficiarão. Atualmente, a Europa exporta dez vezes mais produtos agroalimentares para a China do que para a Índia. Este acordo contribuirá para reduzir esta diferença. Os direitos aduaneiros indianos sobre o vinho diminuirão de 150 % para 20 %. Os direitos sobre o azeite passarão de 40 % para zero. Abrir-se-ão novas oportunidades para os agricultores europeus num vasto mercado de consumo cada vez mais próspero. Ao mesmo tempo, os aspetos sensíveis para a Europa estão plenamente salvaguardados. Não são contempladas reduções pautais para a carne de bovino, as aves de capoeira ou o açúcar, e todas as normas sanitárias, de segurança e ambientais da UE continuam a aplicar-se às importações provenientes da Índia.Os acordos comerciais parecem frequentemente ter apenas uma natureza técnica, mas o seu efeito é simples: quando o mundo se reveste de incerteza, os acordos comerciais geram segurança, e este aspeto é importante. É importante para o produtor de vinho do Douro decidir se investe num aumento da sua colheita ou para o empresário tecnológico dos Azeites do Norte Alentejano ponderar se contrata novo pessoal para adaptar uma aplicação móvel a um mercado distante.Este acordo ultrapassa a esfera económica. A Europa é responsável pela sua própria defesa, tal como somos responsáveis pela nossa prosperidade. Na segurança, como no comércio, estamos cientes de que importa diversificar as nossas opções, pelo que assinamos esta semana a primeira parceria UE-Índia no domínio da segurança e defesa. Este é mais um sinal da magnitude das mudanças que percorrem o mundo e da forma como as novas realidades podem forjar novos laços. Estamos a reforçar as ligações entre as nossas indústrias de defesa e as nossas forças armadas, incluindo exercícios navais conjuntos para combater a pirataria e proteger rotas marítimas vitais.Perante uma ordem mundial mais fraturada, a Europa e a Índia mostram que é possível escolher outra via, a da cooperação em detrimento do confronto.O momento que vivemos não se coaduna com políticas nostálgicas. O mundo não voltará às velhas certezas. A inação não restabelecerá a estabilidade, apenas assegurará o declínio. A resposta da Europa é associar-se mais estreitamente a parceiros de confiança, em busca de diversificação, cooperação e força, sem ilusões e sem temor.Presidente da Comissão Europeia