Trump e Modi de novo aliados?

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De repente, tudo parece voltar a fazer sentido na relação entre os Estados Unidos e a Índia, após seis meses em que a lógica de aproximação geopolítica foi posta em causa: Donald Trump disse que vai reverter as tarifas de 50% impostas em agosto aos produtos indianos, Narendra Modi agradeceu a decisão e promete novos píncaros na cooperação entre Nova Deli e Washington. Segundo o presidente americano, as tarifas vão passar a ser de 18% (eram de 25% quando foram duplicadas subitamente), e o primeiro-ministro indiano não só desiste de comprar petróleo à Rússia como comprará crescentemente crude aos Estados Unidos. Não esquecer que foi a recusa indiana de cortar no abastecimento com petróleo russo a preço de amigo que tinha provocado a inesperada retaliação americana, com Washington a acusar Nova Deli de ajudar a financiar a guerra na Ucrânia.

Este regresso à normalidade geopolítica é uma boa notícia para o lado americano, pois Trump pode sempre reivindicar que as suas pressões tiveram sucesso e que mesmo um acordo como o assinado há dias entre a Índia e a União Europeia não se compara, em importância, ao valor do mercado americano, mas é sobretudo uma excelente notícia para os indianos. No completo tabuleiro da relação entre as grandes potências, uma Índia em ascensão, com ambição de, a curto prazo, ser a terceira economia mundial, não pode prescindir da parceria com os Estados Unidos, que começou a ser construída no início do século e que tinha acelerado desde a chegada de Modi ao governo, em 2014.

Trump, no primeiro mandato, já tinha dado provas de ver a Índia como um aliado decisivo contra uma China cada vez mais candidata a superpotência e, no regresso à Casa Branca, em janeiro de 2025, dera a entender que mantinha esse ponto de vista. Até que aconteceu a crise de agosto. Surpreendido então, Modi reagiu como podia: aproximou-se da China, e tentou tirar dividendos da lealdade à Rússia, uma lealdade que vem da era soviética, que é hoje quase emocional, se bem que a compra de petróleo a bom preço ajudasse a manter a economia a crescer nos 6% ou mais.

"Uma Índia em ascensão, com ambição de, a curto prazo, ser a terceira economia mundial, não pode prescindir da parceria com os Estados Unidos, que começou a ser construída no início do século e que tinha acelerado desde a chegada de [Narendra] Modi ao governo, em 2014."
"Uma Índia em ascensão, com ambição de, a curto prazo, ser a terceira economia mundial, não pode prescindir da parceria com os Estados Unidos, que começou a ser construída no início do século e que tinha acelerado desde a chegada de [Narendra] Modi ao governo, em 2014."EPA / Harish Tyagi

País mais populoso do mundo desde que em 2023 ultrapassou os 1400 milhões de chineses, a Índia costumava ser chamada a maior democracia do mundo. Mas durante a Guerra Fria isso não a empurrou para o lado americano, mesmo que a opção pelo não-alinhamento permitisse a amizade com Moscovo sem alienar totalmente Washington. Contudo, nas décadas mais recentes, começou a haver quem chamasse a atenção para os pontos em comum entre os Estados Unidos e a Índia, desde o sistema político à tradição anglo-saxónica dos tribunais, do uso generalizado do inglês ao espírito capitalista presente tanto no protestantismo, como, de certa forma, na mentalidade de boa parte dos hindus. E a perspetiva de uma aliança entre a América e a Índia agradava às elites.

Mais pragmaticamente, a Índia oferecia aos Estados Unidos uma alternativa à China como país fornecedor de bens, reduzindo a dependência das fábricas chinesas, que foi tão evidente durante a pandemia.

Agradava, oferecia… aquilo que parecia ter terminado subitamente, com perdas para ambos os lados e manifesta irracionalidade geopolítica, volta agora a ser possível. Os 18% de tarifas, em linha (ou até com alguma vantagem) com o imposto pelos Estados Unidos em outros países asiáticos, são de tal forma importantes para a Índia que, do pouco que se sabe das conversas que conduziram ao novo entendimento, levaram a aceitar a renúncia ao petróleo russo, e provavelmente a mais uma ou outra cedência aos americanos. Certamente Trump também pensou nos interesses económicos americanos quando optou pelo recuo na guerra das tarifas.

Mas não se deve olhar para o que virá aí entre americanos e indianos apenas pelo lado económico. Uma vez mais, a lógica geopolítica leva a esperar uma aproximação a vários outros níveis, sendo certo que se a luta pela supremacia no planeta se fará preferencialmente no Indo-Pacífico, os Estados Unidos pensarão sobretudo em como travar a China no Pacífico, enquanto a Índia estará determinada a tudo fazer para que o oceano a que chamamos Índico não se transforme num mar sínico.

Diretor-adjunto do Diário de Notícias

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