Os resultados eleitorais podem parecer simples e claros, mas creio que trazem caixinhas de surpresas escondidas na sua aparente legibilidade.António José Seguro já esmifrou, na primeira volta, além do voto socialista mais convencional, os votos de toda a esquerda e de boa parte do centro-esquerda. Assim se justifica, por exemplo, o peso razoável do voto jovem - até aos 34 anos - que obteve, transferido de eleitores que nas legislativas provavelmente teriam votado Livre, Bloco de Esquerda ou PAN. E que não deve animar especialmente o PS, ou sequer António José Seguro, porque o interesse que qualquer coisa que cheire a socialista faz despontar num português com menos de 35 anos, infelizmente, é próximo do trazido por um fungo interdigital perene...Os eleitores socialistas, como os comunistas, morreram - quando não de causas naturais, muitos, pelo menos de tédio. Ou de saudades de sol, nas gélidas paragens para onde foram viver em busca de um salário decente. E a candidatura de António José Seguro também não é a mais animadora, com a sua mediania absoluta, em que a tranquilidade que promete se arrisca a ser o último bocejo do PS.O despique com Luís Marques Mendes para ver quem dizia o maior número de “nins” e banalidades teve o resultado de se ver o social-democrata a ser afundado por um submarinista - que, na boa tradição naval, se afundou também na batalha, mas com o sentimento de ter cumprido um dever pátrio (e provavelmente fê-lo) -, poupando o socialista, cuja vida foi o PS, de se opor ao social-democrata, cuja vida foi o PSD, mas que parece não ter profissão conhecida, como se diz no jargão dos tribunais, além desse clássico que é criar sociedades meio-fantasmas com a família para pagar menos IRS. E os seus empregadores - órgãos de comunicação social, por exemplo - também, pelos vistos, acham isso o máximo, apesar de toda a santidade e moralismo engravatado que apregoam quando a câmara começa a rolar.André Ventura arrisca-se a ter um excelente resultado e até a ganhar a segunda volta. Porque receberá muitos votos das candidaturas de Cotrim de Figueiredo, de Gouveia e Melo e de Marques Mendes, e porque não é um bronco, apesar do seu discurso feito de mentiras e de apelo ao ressabiamento. Mas há muitas pessoas prontas a ouvir mentiras que lhes parecem convenientes. E ressabiamento é o nome do meio dos portugueses, a par da sonsice e da pequena inveja.Nesta segunda volta, Ventura, além de execrar o “socialismo que atrasou Portugal” com a sua varinha de condão, espalhando-o diariamente sobre Seguro, procurará ativamente encarnar a sua melhor pose de Estado, para tranquilizar e cativar eleitores de direita e do centro que votaram em Cotrim, Mendes e Gouveia e Melo. E os muitos eleitores que não fazem ideia se são de direita ou de esquerda ou do centro e isso não lhes tira um minuto de sono à noite.Se for presidente, lá terá de acelerar a reprogramação de Rita Matias para a sua sucessão (há umas oficinas de carros que prometem milagres no Facebook). Se não for, será o melhor resultado possível: sair da segunda volta com 35 ou 40% dos votos assegura-lhe a continuidade do seu projeto de “mandar a sério” com uma legitimidade reforçada, conclui o processo de normalização da boçalidade, da xenofobia e da mentira pública do seu partido e torna-o apto a substituir Luís Montenegro ou um outro membro dessa pequena casta de ungidos concelhios nascida há décadas dentro do PSD ou do PS, cujo tempo efetivamente acabou, assim eles o soubessem. Professor da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa