Sim, falhámos. Agora olhemos para o que deu certo

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Muito se tem falado e escrito sobre o que falhou em relação à tempestade Kristin que deixou milhares de pessoas sem o mais básico – proteção, água, luz e comunicações – na região centro do país. Fomos rápidos a apontar armas e balas a tudo o que correu mal (várias coisas!), mas como sempre, temos dificuldade em usar para o que deu certo. É normal, porque a nossa humanidade leva-nos, a isso, mas é necessário. Primeiro, e ao contrário daquilo que tem sido comum, não concordo com as leituras de que a prevenção falhou. Os alertas surgiram vários dias antes da fatídica noite de 27 de janeiro – a dia 22, quando da passagem da depressão Ingrid, até já se tinham começado a fazer descargas preventivas de barragens, que se mantiveram nos dias seguintes, quando houve mais tempestades. Os alertas chegaram a todo o território nacional – e não é preciso ter um curso superior para perceber o que são ventos de 140 km/h. Na rádio, nas televisões, nos jornais e nas redes sociais os avisos foram claros: evitar saídas não essenciais; retirar objetos passíveis de voar das varandas e quintais, fechar janelas e portadas ou estores; não caminhar junto ao mar ou cursos de água, porque havia riscos de inundação. Como é que se trava um vento de 140 (ou 208) km/h? Não se trava. Um vento que corta árvores ao meio, arranca torres sineiras que sobreviveram séculos ou vira carros ao contrário não é travável. E tanto é que a prevenção resultou, que o número de pessoas que perdeu a vida naquela noite, sendo sempre alto, foi efetivamente “um milagre”, nas palavras do presidente da Câmara de Leiria.

A resposta do governo central e das autoridades nacionais – Proteção Civil, Forças Armadas – foi manifestamente lento. Não há justificação para não ter havido, até sexta-feira, uma estratégia nacional da Proteção Civil ou militares no terreno desde a primeira hora. Mas o que se viu acontecer entre particulares e empresas foi de muito valor, sobretudo numa altura em que falhou aquilo que me parece o mais grave: as comunicações. Desde que tomou posse, em 2024, que a presidente da ANACOM, Sandra Maximiano, tem avisado para a falta de resiliência e redundância das redes. Tem tentado forçar a partilha de infraestruturas, mas também a construção de novas para evitar que, tal como voltou a acontecer, as pessoas fiquem isoladas. Alertas que logo após o sismo de 2024 deviam ter feito as operadoras – e o Governo! – agir em conformidade. Em entrevista à Visão, nesse ano, dizia claramente: “Se houver uma catástrofe avassaladora, e se nada ficar de pé, dificilmente podemos contar com os telemóveis”. O que funcionou? Rádios a pilhas em casas que aprenderam com o apagão, que permitiram às pessoas ir ter aos locais onde tem estado a ser distribuída ajuda. Municípios vizinhos a abrir portas de estruturas, a fornecer geradores, empresas a partilhar recursos materiais e humanos, e isto tudo sem esperar pelas autoridades. Porque, às vezes, o que é preciso mesmo é que nos não falhe a empatia. O Governo devia estar mais bem preparado? Claro que sim. Falhou tudo? Não. Não falharam as pessoas. E, nos tempos que correm, isso não é coisa pouca.

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