Não sei se tenho leitores assíduos, mas caso tenha e for um deles, endereço já as minhas desculpas pela escolha de um título tão afirmativo para esta crónica, se não mesmo panfletário..Faço-o porque nestes últimos tempos, quando nos apareceu o impensável, e para que não haja dúvidas: o inesperado, o adventício ou o extemporâneo; fintamo-lo de soslaio e seguimos com a vida, e quando demos por nós, ele já estava instalado..É o que temos assistido na vida social do país, pronto para retrocessos e revanchismos, que não vão certamente ficar por aqui. Assim, dou-me ao direito e ao dever de deixar a cerimónia de lado..Acabámos de sair de uma campanha eleitoral. Apesar de sermos há dois anos bombardeados com painéis mediáticos a toda a hora sobre dois conflictos internacionais, não fomos capazes de debater minimamente a política internacional no seio da campanha..No pós-eleições, o assunto entrou-nos porta adentro pelo lado mais patrioteiro: a reintrodução do Serviço Militar Obrigatório (SMO), com o argumento exacto daquilo que não foi discutido na campanha: temos uma guerra na Europa, não estamos a cumprir com as nossas obrigações com a NATO, precisamos de alargar o recrutamento..Não começou esta semana. Ainda antes das eleições, apareceram na imprensa um par de textos a sugerir a reintrodução do SMO. Foi só sentir a inclinação dos tempos para um conjunto de altas patentes das forças armadas virem a público afirmá-lo..A descontinuidade do SMO faz parte de uma evolução histórica. Portugal teve uma guerra colonial onde morreram 10 mil dos seus soldados e outros 20 mil ficaram inválidos, para além dos 100 mil mortos entre as populações que lutaram pela sua libertação..O 25 de Abril, promovido por militares, acabou com a guerra, mas ainda fez depender o regime político durante alguns anos da presença militar na vida civil. Até que, em democracia consolidada e com Portugal num papel secundário na geoestratégia mundial, 30 anos depois do 25 de Abril, em 2004, se terminou com o SMO..Entretanto, não tanto dos militares, mas a partir de políticos, surgiu uma segunda vaga argumentativa a favor do SMO. Dizem-nos que que o serviço pode ser um espaço de formação de cidadania, de personalidade ou, como ouvi defender José Ribeiro e Castro – militante e ex-líder do CDS, o mesmo partido do actual Ministro da Defesa – pode ser um espaço importante de coesão social do país, permitindo o encontro entre portugueses de vários estratos sociais..Eu ainda sou do tempo do SMO e lembro-me bem como funcionava. No caso de frequentarmos o ensino superior, poderíamos adiar a incorporação até entrar na reserva territorial, o que significa que eram os menos privilegiados que acabavam por ter a obrigação inadiável de ir para as forças armadas. Depois há que somar todo um conjunto de esquemas, favores e cunhas que existiam para não obstar a progressão de carreira civil de um conjunto de filhos de doutores..Não deixa por isso de ser interessante, e um retrato do país que temos, que o advocacy para a reintrodução do SMO seja feita exclusivamente por homens, que têm a certeza de que os seus filhos e netos não vão patrocinar tal medida. Os mesmos homens das forças políticas que são contra as aulas de cidadania, mas a favor da obrigação de uma cidadania militar..Seremos uma comunidade falhada quanto mais precisarmos de um SMO para incutir cidadania e coesão nos membros da nossa sociedade, ou mesmo para formar os nossos jovens e para os impedir de emigrarem..Bastar-me-ia o meu antimilitarismo ou pacifismo convicto para escrever estas linhas, mas mesmo no campo da política real é uma medida sem sentido..O movimento por um SMO ocorre essencialmente em países europeus fronteiros com a guerra. Estamos mais distantes da Ucrânia e da Rússia do que do conflicto do Sahel ou do Sahara Ocidental. No que respeita ao compromisso com a NATO de atribuirmos 2 % do PIB a despesas militares, estamos à frente de países com a dimensão da Turquia, Canadá, Itália ou Espanha..As Forças Armadas portuguesas servem basicamente para controlo de fronteira, essencialmente marítima e aérea, e para agregar forças com outros parceiros para missões internacionais, desígnios que nem vêm a debate público. Desengane-se quem acha que servem para uma defesa massiva da integralidade territorial do país, porque nem do país vizinho seriamos capazes de impedir uma invasão, quanto mais de uma grande potência mundial..Se querem mais voluntários para as forças armadas, façam-nas atractivas. Aumentem os salários das suas carreiras e não as façam um corpo de mão-de-obra barata para justificar o excesso de generais que temos..Há 115 conflictos armados actualmente no mundo. Não me convencem com o argumento vigente desde o pós-guerra de que o aumento de armamento e recursos militares é dissuasor de guerras. O caminho para a paz não se faz com mais instrumentos para a guerra entre os povos.