Ser ou não ser jornalista

Vários domínios do jornalismo contemporâneo vivem assombrados pelo "síndrome Amanpour". Foi, de facto, através do trabalho da inglesa Christiane Amanpour, na CNN Internacional, que a imagem do jornalista "em acção" num contexto perigoso (quase sempre um cenário de guerra) adquiriu o simbolismo perverso de uma identidade transcendental: se uma bomba rebenta atrás da repórter que fala para a câmara, então isso deve ser reconhecido como um suplemento de verdade...

A descrição é redutora, até porque omite o talento de Christiane Amanpour. A diversidade do seu trabalho e, em particular, o seu actual programa de entrevistas distingue-se por uma marca muito pessoal (o título é apenas: Amanpour), marca de gosto e empenho em confrontar os seus interlocutores com questões sérias e complexas, evitando ceder ao infantilismo de supor que quanto mais rasteiras passar ao entrevistado melhor será o factor jornalístico - quando se passa uma rasteira alguém cai, é verdade, mas não acontece nada de interessante.

O que está em causa é a simplificação pueril do olhar, supostamente legitimada por uma determinada experiência-limite: define-se e, não poucas vezes, promove-se o jornalista como aquele que, microfone na mão, eventualmente envergando um colete à prova de bala, se distingue por surgir "sobreposto" a algum fundo em que se detecte ou pressinta um qualquer sinal de perigo ou violência. Claro que o jornalista pode até estar a arriscar a vida, mas no limite mais cruel do dispositivo em que está inserido surge apenas como uma derivação redundante do aparato do estúdio. O inevitável efeito prático (entenda-se: social) é a desqualificação do próprio labor jornalístico.

Neste contexto, não surpreende que o valor social do cinema esteja também muito desvalorizado. Ou, pior um pouco, empolado de modo caricatural: a dimensão social dos filmes passou a ser confundida com o cumprimento de quotas (de género, de raça, etc.), frequentemente reduzindo a infinita pluralidade da experiência humana a um amontoado determinista de personagens e comportamentos.

Recentemente lançado nas salas portuguesas, Ouistreham - Entre Dois Mundos, de Emmanuel Carrère, é um filme realmente fora de série - do meu ponto de vista, ficará mesmo como uma das grandes estreias de 2022 - que nos pode ajudar a repensar todas essas questões. Até porque não há nele nenhuma chantagem moralista sobre o que seja, ou possa ser, o jornalismo. Estamos perante o relato de uma experiência singular, porventura irrepetível, que nos recoloca perante uma interrogação vital: como dizer, escrever, filmar o mundo à nossa volta?

Há um "segredo" no filme de Carrère que me atrevo a desmontar por uma razão muito básica: está revelado em todas as suas formas de divulgação, a começar pelo trailer. Assim, começamos por conhecer a personagem central, interpretada por Juliette Binoche (de novo admirável), como uma mulher algo à deriva: chega à cidade de Ouistreham, na costa da Normandia, e consegue emprego como empregada de limpeza nos barcos que fazem a travessia do Canal da Mancha, a caminho do porto inglês de Portsmouth - em poucos minutos saberemos que ela é Marianne Winckler, jornalista e escritora que quer conhecer directamente aquelas condições de trabalho como matéria para um livro.

Inspirado num livro em que Florence Aubenas relatou a sua própria experiência de investigação, Ouistreham - Entre Dois Mundos é o contrário do novo-riquismo cultural que apresenta o jornalista como um anjo da guarda abençoado pelo dom de "transcrever" uma verdade universal que se confunde com uma revelação divina. Aqui, Marianne expõe-se como um olhar hesitante, um corpo que escreve, enfim, alguém que procura palavras que possam ecoar a experiência perturbante em que se envolveu - e tanto mais quanto a sua duplicidade vai abalar os laços de confiança que conseguiu estabelecer com as "colegas" de trabalho.

Estamos perante um objecto de cinema enraizado numa invulgar depuração dramática. Nenhum feminismo de "talk show", nenhuma ideologia de santificação das "mulheres" e demonização dos "homens": Ouistreham - Entre Dois Mundos é uma narrativa hiper-elaborada, alheia a qualquer formatação das identidades individuais e das relações humanas.

E não será necessário sublinhar o facto de Carrère ser, antes do mais, um romancista - autor, por exemplo, de O Adversário, transformado em filme, em 2002, sob a direcção de Nicole Garcia -, assinando aqui a sua segunda realização cinematográfica (estreou-se em 2005, com La Moustache/Amor Suspeito, também adaptado de um dos seus romances). Para ele, trata-se de usar o cinema como espelho e bisturi da arte de olhar o mundo à nossa volta, aqui confrontando o jornalismo com a subjectividade que, de modo mais ou menos consciente, o fundamenta.


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