A decisão de António José Seguro, recém-eleito Presidente da República, de dedicar o primeiro Conselho de Estado à Segurança e Defesa não é neutra. Aliás, a escolha do tema para esta reunião inaugural nunca o é. Funciona como uma declaração de prioridades. Neste caso, mostra que Seguro fez uma leitura pragmática da sucessão de incêndios severos, agora seguida pelos efeitos destrutivos das tempestades Kirstin e Marta, que deixaram a descoberto a vulnerabilidade do território e das populações. Durante anos, em Portugal, Segurança e Defesa foram matérias remetidas para círculos especializados, discutidas entre militares, diplomatas e peritos. Raramente mobilizaram debate público alargado, salvo em momentos de crise. Mas o contexto internacional mudou muito rapidamente. A guerra regressou ao espaço europeu, as tensões geopolíticas multiplicam-se, as ameaças híbridas — do ciberespaço à desinformação — tornaram-se parte do quotidiano das democracias.Neste quadro, tratar Segurança e Defesa como dimensões estruturais da soberania não é alarmismo. Um Presidente que coloca estes temas no topo da agenda reconhece que a autonomia estratégica de um país pequeno e aberto, como Portugal, depende da sua capacidade de antecipar riscos, fortalecer alianças e investir de forma inteligente nas suas capacidades.A entrevista concedida ao podcast Soberania, do Diário de Notícias, em agosto de 2025, já candidato a Belém, foi inteiramente dedicada a estas duas áreas. Seguro defendia uma lógica de prevenção e preparação estrutural, recusando a ideia de aceitar as catástrofes como inevitáveis. Essa perspetiva aponta para políticas públicas continuadas em matéria de ordenamento do território, gestão florestal, coordenação institucional e meios de resposta. A Segurança, neste quadro, depende tanto da estratégia como da execução.É aqui que a função presidencial pode assumir um papel relevante. O Presidente da República é, constitucionalmente, o Comandante Supremo das Forças Armadas. Esse estatuto não se limita à dimensão militar clássica, nem à política externa. Num país sujeito a riscos naturais recorrentes, as capacidades militares — logísticas, de engenharia, transporte, comunicações e organização no terreno — são frequentemente decisivas em situações de emergência.O empenhamento das Forças Armadas em missões de apoio às populações não é novo, mas nem sempre é plenamente valorizado no debate público. Um Presidente que sublinhe esta dimensão pode contribuir para normalizar essa cooperação e ultrapassar preconceitos que tendem a separar rigidamente defesa e proteção civil. Em cenários de crise climática, proteger território e salvar vidas é também uma forma de defesa nacional.No domínio da Defesa propriamente dita, Seguro tem defendido uma abordagem de racionalidade estratégica. A sua posição ficou sintetizada numa frase: “Não se pode gastar mais sem primeiro gastar melhor.”A ideia de converter despesa em investimento produtivo, com base tecnológica e científica, liga Defesa, Economia e Inovação. Num momento em que vários países europeus reforçam orçamentos militares, esta perspetiva privilegia sustentabilidade e retorno estratégico.Para um país com recursos limitados, investir em capacidades, tecnologia dual e base industrial é simultaneamente política de Defesa e política de Desenvolvimento. A despesa deixa de ser vista como encargo isolado e passa a integrar uma estratégia de competitividade.Seguro tem igualmente descrito o papel presidencial como orientado para compromissos duradouros. Defendeu que o chefe de Estado deve “fugir do dia a dia e concentrar-se em promover os compromissos e os acordos necessários, que reforcem as raízes das nossas instituições democráticas”. Essa definição aponta para uma magistratura de influência, centrada em áreas que exigem continuidade entre governos.A Segurança é uma dessas áreas. Proteção Civil, Defesa, coordenação institucional e confiança pública dependem de políticas estáveis. O Presidente não executa, mas pode enquadrar prioridades, incentivar planeamento e promover articulação entre instituições.Ao afirmar, nesta mesma entrevista, que o papel que quer para si, enquanto Presidente, é “levar a esperança onde há medo”, Seguro estabelece também um critério exigente para o mandato. Em matéria de Segurança, a esperança traduz-se em prevenção eficaz, organização do Estado e respostas concretas para os cidadãos. Colocar a Segurança no início da agenda presidencial corresponde a um diagnóstico realista sobre os tempos em que vivemos. O desafio será manter essa centralidade quando a atenção mediática se deslocar para outras urgências. A continuidade estratégica é menos visível do que a resposta imediata, mas é ela que produz efeitos duradouros.Num contexto de incerteza, a Segurança tornou-se um eixo transversal das políticas públicas. Assumi-la como prioridade presidencial é reconhecer essa realidade.A verdadeira medida do sucesso, porém, não estará no simbolismo do primeiro Conselho de Estado, mas na capacidade de transformar o tema em política consistente e escrutinada. Segurança e Defesa não são apenas assuntos de Estado — são, cada vez mais, assuntos de sociedade. É nesse plano que se avaliará o alcance desta Presidência.