Rui Salazar anda feliz. É que, como um milagre, o ingrato país voltou a falar do seu tio António. Ele que pensava ser o único a lembrar-se do maior e mais sério homem que tivemos: António de Oliveira Salazar. Rui adora os invernos porque pode calçar as botinhas que eram do tio-avô, o irmão de sua mãe. Considera-se um escolhido e não há dia em que não tente respeitar a vida que Deus desejou que tivesse, a responsabilidade de ser o guardião do sepulcro onde estão botinhas, alguma roupa, garrafas de vinho, um carro antigo, objetos e os relatórios dos Conselhos de Ministros de cada dia em que presidiu ao conselho.Rui calça as botinhas no Inverno. E quando o faz sente-se mais leve, quase como se pudesse levitar por entre os corredores do Palácio de São Bento, que nunca mais foi o mesmo, com a democracia e os democratas mais a sua mania das grandezas.Todos os dias, pela manhã, lê o relato de um dia do Conselho de Ministros. Segue a cronologia e quando chega ao último dia, volta ao primeiro. Senta-se no topo da mesa e imita a voz do tio, faz as suas falas e a prática permite-lhe escutar as vozes dos ministros. Por vezes, prepara um chá e leva-o para a mesa como Maria fazia. Depois das chuvas vai ao cemitério e limpa a campa rasa de qualquer sujidade que desvirtue a pureza.Anda feliz, o Rui. E preparado para votar no próximo domingo. Sem nenhuma dúvida onde pôr a cruzinha. Quase como um milagre, o país tornou a ter homens de bem que recordam o tio como se ele estivesse vivo e pudéssemos voltar a ser pobrezinhos, mas honrados.