Saber governar as perceções e os factos

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A transparência ativa deveria ser um princípio estruturante do Estado Democrático e uma condição essencial para uma cidadania ativa e informada. Quando o debate público é facilmente capturado por perceções não-baseadas em factos, o verdadeiro desafio já não é produzir mais dados, mas transformá-los em informação compreensível, contextualizada e útil.

Durante demasiado tempo confundiu-se transparência com acumulação de repositórios, através de portais cheios de documentos, dados fragmentados, linguagem técnica e ausência de contexto. Esta pseudotransparência afasta os cidadãos e cria um terreno fértil para a desinformação e para o populismo.

A transparência ativa começa quando os dados se tornam vivos, atualizados, rastreáveis, ligados a processos reais e quando são traduzidos em informação ao serviço da cidadania. Painéis de controlo (Dashboards) claros e amigáveis permitem perceber como são usados os recursos públicos, quem decide, quando decide e com que resultados. Quando os factos estão visíveis, o ruído diminui e o populismo é esvaziado.

Este princípio é particularmente relevante em áreas sensíveis do debate público, como a associação entre imigração e criminalidade. A disponibilização ativa de informação sobre criminalidade, cruzada com dados demográficos, territoriais e socioeconómicos, permite desconstruir perceções erradas e demonstrar, com evidência, que a realidade é mais complexa do que os slogans. A transparência não elimina o debate político, mas obriga-o a assentar em factos e não em medos.

O portal BASE, ao tornar públicos os contratos do Estado, permite acompanhar adjudicações, valores e padrões de contratação. Quando estes dados passam a ser apresentados de forma inteligível, deixam de ser meros registos administrativos e passam a ser instrumentos de escrutínio democrático.

O Registo Central do Beneficiário Efetivo permite saber quem está por trás das entidades que contratam ou beneficiam de decisões públicas. Esta visibilidade reduz conflitos de interesses e combate estruturas opacas, substituindo suspeitas genéricas por factos verificáveis.

O portal agregador Mais Transparência, mostra igualmente o potencial futuro dos dados quando são bem organizados, tornando orçamentos, execução financeira, mapas de pessoal ou indicadores de desempenho legíveis e comparáveis, sem necessidade de intermediação técnica. Mas ainda estamos muito longe de uma verdadeira transparência ativa e não se vê qualquer esforço político nessa direção.

Particularmente sensível é o acompanhamento dos licenciamentos económicos e urbanísticos. Processos historicamente opacos poderiam hoje ser monitorizados quanto ao seu estado, cumprimento de prazos legais e entidades envolvidas. Esta visibilidade reduziria arbitrariedades, atrasos injustificados e perceções de favorecimento.

Os mecanismos de auditoria cívica e jornalística (cloud auditing) garantem que a informação apresentada corresponde à realidade dos sistemas internos. O direito de acesso, previsto na Lei de Acesso aos Documentos Administrativos (LADA) e no RGPD, reforça a responsabilidade pessoal no exercício da cidadania ativa, desmontando a ideia de um “sistema” abstrato e irresponsável, onde tudo se dilui em perceções que facilmente se transformam em armas do populismo.

Mais do que combater maus comportamentos éticos, a transparência ativa combate perceções injustas. Num Estado opaco, mesmo decisões corretas parecem suspeitas e, num Estado transparente, as decisões podem ser explicadas, avaliadas e debatidas com base em evidências.

A transparência mede-se pela capacidade de transformar dados vivos em suporte à cidadania ativa. Um Estado que se deixa ver não enfraquece, pois fortalece a democracia, substituindo o governo das perceções pelo governo dos factos.

Especialista em governação eletrónica

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