Saber estar

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Na passada semana tomou posse o novo executivo e com maioria para governar Portugal. A propósito desse importante momento, relembrarei uma parábola.

Um dia houve uma cerimónia que tinha convidados a mais. Desse modo, um dos organizadores pediu para que os invitados do noivo se encostassem à esquerda e os da noiva à direita. Ao centro ficou um aglomerado de convivas. Por seu turno, o anfitrião agradeceu a presença de todas e de todos, relembrando-os que estavam num batizado, não num casamento.

Ao escutar os discursos na cerimónia de tomada de posse do Governo, foi inevitável o reaparecimento desta metáfora. Não se tratou de um momento qualquer e o contexto em que aconteceu ainda a tornaram mais atípica, a saber: a interrupção da anterior legislatura, dois meses de espera entre o ato eleitoral e a posse, uma conjuntura pós-pandémica e a guerra que assola a Europa e suas naturais consequências.

Com todas as adversidades acima descritas, quem estava destinado a sair derrotado das eleições, de acordo com as sondagens à boca das urnas, que segundo todos os analistas tinha selado o seu destino político, acabou por protagonizar uma vitória histórica para o Partido Socialista.

Tendo presente que a informação em Portugal, talvez por uma questão cultural, vive muito do comentário, das múltiplas análises e opiniões, seria perfeitamente expectável que essas viessem em catadupa. Afinal de contas tratou-se da entrada em funções de um novo Governo e com uma maioria absoluta, uma particularidade mais rara no nosso país. Todavia, houve quem não se contivesse nas suas interpretações e, talvez, tenha saltado para fora de pé.

Os portugueses deixaram bem claro a escolha que fizeram para o XXIII Governo. Por sua vez, coube ao PS, seu Secretário-geral e Primeiro Ministro, apresentar o programa de governo. Aí estão definidas as linhas base da política legislativa deste mandato e do rumo que se vai percorrer ao longo dos próximos quatro anos e meio.

Ora, voltando à circunstância em que alguém saiu da sua esfera de atuação e "afastou as atenções" de quem tomou posse, fazendo recurso a avisos (para ir mais longe) e assumindo a liderança da oposição de direita ao Governo, trata-se de um papel inoportuno e desapropriado. Este tipo de querelas não deve ter lugar entre São Bento e Belém, mas sim na Assembleia da República.

Por isso é deveras importante que cada um tenha consciência, a todo o momento, acerca das funções que desempenha. Torna-se ainda mais relevante quando se trata de uma posição de Estado, não compatível com a de comentador ou analista. Há cargos na vida que exalam seriedade e institucionalidade, por muito que o coração palpite com cargos assumidos no passado. Só assim é possível saber estar.

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