As relações kuwaitiano-portuguesas são um exemplo diplomático equilibrado que conseguiu construir bases sólidas de cooperação assentes no respeito mútuo e nos interesses comuns, apesar da distância geográfica e das diferentes realidades históricas entre os dois países. Desde a independência do Estado do Kuwait, em 1961, ambas as partes têm procurado desenvolver as relações políticas, económicas e culturais num quadro de abertura e diálogo, o que contribuiu para consolidar a imagem do Kuwait como um Estado do Golfo com uma presença diplomática distinta, e de Portugal como um parceiro europeu de confiança, detentor de uma experiência de desenvolvimento e civilização que pode ser aproveitada na região do Golfo Árabe.As origens do Estado do Kuwait remontam ao início do século XVII, quando a cidade do Kuwait foi fundada em 1613 e se afirmou como um porto comercial ativo nas margens do Golfo Árabe. A 19 de junho de 1961, o Kuwait obteve a sua independência, entrando numa nova fase de construção do Estado moderno. A 11 de novembro de 1962 foi promulgada a Constituição do Kuwait, uma das mais antigas da região árabe, que garante os direitos e as liberdades públicas dos cidadãos. A Constituição é composta por 183 artigos, que constituíram o quadro legal que organizou a vida política e social do país e consolidou o princípio da soberania da lei e da separação de poderes.Este quadro constitucional foi o ponto de partida para um percurso de desenvolvimento contínuo, no qual a liderança kuwaitiana deu especial atenção à modernização das instituições do Estado e à diversificação da base da economia nacional.Visão do Estado do Kuwait 2035 “Novo Kuwait”:Esta visão visa criar uma economia diversificada e sustentável, na qual o setor privado desempenhe um papel de liderança na atividade económica, baseada em competências humanas qualificadas e num ambiente legislativo e institucional que incentive a criatividade e a inovação. Procura igualmente melhorar a qualidade de vida e fornecer serviços de saúde e educação avançados a todos os cidadãos, preservando o meio ambiente e a identidade social e nacional.A Visão Kuwait 2035 assenta em sete pilares principais:1. Economia diversificada e sustentável.2. Administração pública eficiente.3. Ambiente de vida sustentável.4. Infraestruturas desenvolvidas.5. Cuidados de saúde de alta qualidade.6. Capital humano criativo.7. Posição internacional de destaque.Estes pilares não representam apenas objetivos de desenvolvimento, mas um percurso estratégico integrado que liga a política económica à abertura internacional.O Estado do Kuwait procura alinhar a sua visão nacional com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas, garantindo a coerência dos seus planos com os padrões internacionais e reforçando a sua posição na economia global. O governo kuwaitiano estabeleceu mecanismos claros para medir o desempenho e o progresso na execução do plano (2035) segundo indicadores globais que permitem comparações com outros países.Graças a esta visão, o Kuwait procura criar um ambiente promissor para o investimento estrangeiro, beneficiando da sua localização estratégica no Golfo Árabe, da infraestrutura desenvolvida, do sistema judicial integrado e da política externa equilibrada. Aqui, Portugal destaca-se como um parceiro ideal para o desenvolvimento de projetos estratégicos nos domínios da economia verde, das energias renováveis, das infraestruturas, da educação e do turismo — setores em que a longa experiência portuguesa se cruza com as prioridades de desenvolvimento do Kuwait. . No plano diplomático, Portugal caracteriza-se por uma política externa equilibrada e por relações sólidas com os países da União Europeia, o que oferece ao Kuwait uma porta de entrada para a cooperação com a União através de Lisboa. Por sua vez, Portugal vê o Kuwait como um parceiro estratégico estável na região do Golfo e uma força económica em crescimento, detentora de um dos maiores fundos soberanos do mundo.No campo político, a abordagem de ambos os países converge no respeito pelo direito internacional e no apoio à diplomacia multilateral, especialmente nas Nações Unidas e em outras instituições internacionais. Portugal demonstrou um forte apoio à soberania e integridade territorial do Kuwait durante a invasão iraquiana de 2 de agosto de 1990 — uma posição ainda hoje apreciada oficialmente e pelo povo kuwaitiano, refletindo a solidez das relações entre os dois países.No plano cultural e educativo, as relações entre os nossos dois países amigos continuam em fase de expansão e seguem um caminho claro de reforço. Procuraremos desenvolver programas de intercâmbio cultural e académico com as universidades portuguesas, conhecidas pela qualidade do seu ensino e reputação mundial. Portugal mostra-se igualmente disposto a fortalecer a cooperação no ensino superior e na investigação científica, o que permitirá abrir novas perspetivas para os estudantes kuwaitianos e reforçar o contacto entre as novas gerações de ambos os países.Do mesmo modo, o turismo começou a desempenhar um papel significativo na aproximação entre os povos: Portugal tornou-se, nos últimos anos, um destino preferido dos turistas kuwaitianos graças à sua segurança, ao clima ameno e ao rico património cultural. Por seu turno, o mercado do Golfo em geral é cada vez mais relevante para o setor turístico português.Espera-se também que a cooperação académica e cultural contribua para a criação de uma base humana qualificada que apoie esta parceria, através da promoção de programas conjuntos entre universidades e centros de investigação, bem como da colaboração nas áreas da língua, tradução e património cultural.Economicamente:Nos últimos anos, registou-se um aumento gradual no volume das trocas comerciais entre o Kuwait e Portugal. Portugal exporta para o Kuwait uma variedade de produtos que incluem equipamentos industriais, materiais de construção, têxteis e produtos alimentares, enquanto o Kuwait é um fornecedor essencial de energia através da exportação de petróleo e seus derivados. As estatísticas recentes indicam que os derivados do petróleo representaram cerca de 77,5% do total das importações portuguesas provenientes do Kuwait em 2023.Apesar desta evolução, o volume de comércio bilateral continua relativamente limitado: o Kuwait ocupa a 76.ª posição na lista de países fornecedores de Portugal e a 72.ª como destino das exportações portuguesas. Estes números mostram que existe um vasto espaço para aprofundar a cooperação económica e aumentar o volume das trocas nos próximos anos. . Ferrovias:A nível de investimento interno, o Estado do Kuwait está atualmente a implementar um grande projeto estratégico ferroviário que visa ligar o país aos Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, no âmbito do projeto ferroviário do Golfo. Em abril de 2025 foi assinado o contrato de conceção da parte kuwaitiana deste projeto, com uma extensão de cerca de 111 quilómetros, desde a fronteira sul, na zona de Al-Nuwaiseeb, até à zona de Al-Shadadiya, próxima da cidade do Kuwait. Esta secção constitui a primeira fase da rede ferroviária que ligará o Kuwait aos restantes países do Conselho de Cooperação e servirá de base para uma futura rede interna com cerca de 265 quilómetros, ligando a cidade do Kuwait ao Porto Mubarak Al-Kabir e à ilha de Boubyan. Espera-se que esta rede venha a reforçar o transporte de passageiros e mercadorias entre os países do Golfo, a apoiar o comércio inter-regional e a facilitar o acesso aos portos e novas zonas económicas do país.Paralelamente, o Kuwait e a Arábia Saudita estão a estudar outro projeto para ligar a cidade do Kuwait à capital saudita, Riade, através de uma linha ferroviária de alta velocidade, em preparação para definir o traçado final, o custo estimado e o prazo de execução. As estimativas iniciais indicam que a extensão prevista da linha varia entre 650 e 700 quilómetros, proporcionando um meio de transporte moderno e rápido entre as duas capitais e reduzindo o tempo de viagem para menos de duas horas.Porto Mubarak Al-Kabir:O projeto do Porto Mubarak Al-Kabir é considerado um dos mais importantes projetos logísticos no âmbito da visão de desenvolvimento do Kuwait para o norte do país. Localizado na ilha de Boubyan, o porto está planeado para se tornar um centro regional de comércio marítimo, com uma capacidade estimada de 8,1 milhões de contentores por ano e cerca de 24 cais de atracagem quando estiver concluído.Ponte Sheikh Jaber:Não podemos deixar de recordar que o Kuwait ligou este porto vital, localizado no extremo da enseada do Kuwait, através de uma ponte marítima chamada Ponte Sheikh Jaber, em homenagem ao falecido Emir do Kuwait, Sheikh Jaber Al-Ahmad Al-Jaber Al-Sabah. Esta ponte estende-se por cerca de 50 quilómetros e é a quarta ponte marítima mais longa do mundo, inaugurada em 2019. Reduz a distância e o tempo entre a cidade do Kuwait e a cidade de Subbiya — a “Cidade da Seda” — destinada a transformar o Kuwait num centro financeiro e comercial e a tornar-se a “Cidade do Futuro” do país até 2035.Novo Aeroporto Internacional do Kuwait:O novo edifício do terminal (Terminal 2) situa-se a sul do atual aeroporto internacional do Kuwait. O projeto aumentará significativamente a capacidade do aeroporto existente e está previsto ser inaugurado no início de 2027.Entre os seus objetivos estratégicos está a aplicação das mais recentes normas ambientais e tecnológicas para alcançar altos níveis de conforto. O projeto visa obter a certificação LEED Gold (Liderança em Energia e Design Ambiental), tornando-se assim o primeiro terminal de passageiros do mundo a atingir este nível de acreditação ambiental. A estrutura em betão proporciona massa térmica adequada e o teto integra extensas áreas de painéis solares fotovoltaicos para maximizar o aproveitamento da energia solar.Estes projetos representam uma oportunidade importante para as empresas portuguesas participarem na construção de elementos essenciais da visão económica de longo prazo do Kuwait. Constituem uma transição qualitativa na infraestrutura de transportes e serviços logísticos, abrindo novas perspetivas de investimento e integração entre o Kuwait e o resto do mundo, reforçando a posição do país como centro económico e logístico regional na próxima década. . Investimento kuwaitiano em Portugal:O fundo soberano kuwaitiano, pertencente à Autoridade Geral de Investimento do Kuwait (KIA), investe em vários setores em Portugal, especialmente no imobiliário e nos serviços, tendo aumentado significativamente os seus investimentos nos últimos anos devido à confiança no futuro do mercado português.Em fevereiro de 2025, uma missão comercial portuguesa, composta por empresas dos setores da construção, turismo e cibersegurança, visitou o Kuwait para explorar oportunidades de cooperação económica — um sinal claro do interesse mútuo em expandir as parcerias bilaterais. As empresas portuguesas também ambicionam participar em projetos da Visão Kuwait 2035, sobretudo nas áreas das infraestruturas, energias renováveis, serviços de saúde e tecnologias de informação. A Embaixada do Kuwait está a coordenar a preparação de uma delegação comercial composta por empresas e empresários portugueses que visitará o Kuwait no início de 2026.O Kuwait tem demonstrado um crescente interesse em investir em Portugal, especialmente nos setores da energia, hotelaria e imobiliário, devido à estabilidade económica do país e à sua posição estratégica na União Europeia. Várias empresas kuwaitianas, incluindo a Q8 Energy, são protagonistas no mercado português nos domínios dos combustíveis e serviços petrolíferos.A empresa kuwaitiana Menzies, que presta serviços de assistência em terra nos aeroportos portugueses, tem estado ativa nos últimos anos, assim como a nova empresa Blue Vision, que oferece serviços de FBO (Fixed Base Operator) nos aeroportos de Lisboa, Faro, Porto e Beja.Não podemos deixar de mencionar um dos investimentos kuwaitianos mais importantes no setor dos serviços e hotelaria — a empresa IFA Group, que possui um conjunto de hotéis em Portugal, nomeadamente o Pine Cliffs em Porto, o Hyatt Regency em Lisboa, o Sheraton Cascais, o Yotel em Porto e o projeto Quinta Marques Gomes em Vila Nova de Gaia, junto ao Porto. Estes investimentos hoteleiros representam, por si só, cerca de 750 milhões de euros.Além disso, ambas as partes veem na cooperação nos domínios da inovação, digitalização e economia verde um caminho promissor para o futuro das relações económicas. Portugal tem uma experiência bem-sucedida em energias renováveis e gestão ambiental, áreas que se alinham com os objetivos do Kuwait de diversificar as fontes de rendimento e reduzir a dependência do petróleo.À luz das transformações económicas globais, os dois países tendem a adotar políticas de investimento mais abertas, com foco na segurança alimentar, turismo sustentável e tecnologia digital — fatores que conferem às relações Kuwait-Portugal um caráter estratégico de longo prazo.+Aspetos geopolíticos:O Estado do Kuwait constitui uma porta de entrada para o Golfo Árabe e o Médio Oriente, enquanto Portugal é uma porta para a Europa, África e América Latina, graças à sua localização atlântica. Esta convergência geográfica confere à parceria kuwaitiano-portuguesa uma dimensão geopolítica especial que pode ser explorada para reforçar as trocas comerciais, os serviços logísticos e a ligação entre os mercados das duas regiões.Conclusão:Pode dizer-se que as relações kuwaitiano-portuguesas encontram-se hoje perante uma nova fase de desenvolvimento, assente numa longa história de respeito mútuo e em ambições futuras promissoras. O Kuwait avança firmemente na realização da sua Visão 2035 de desenvolvimento, e Portugal dispõe da experiência e das capacidades que o qualificam como parceiro de confiança neste percurso.Com a continuidade da coordenação diplomática e o crescimento da cooperação económica e cultural, o futuro das relações entre os dois países não depende apenas das instituições oficiais, mas também dos povos, dos setores produtivos e das comunidades académicas, que podem construir pontes de compreensão duradoura e transformar as visões comuns em realidade concreta. Assim, a relação entre o Kuwait e Portugal permanece um exemplo de cooperação construtiva entre o Oriente e o Ocidente, baseada na confiança e numa visão partilhada de um futuro mais próspero e equilibrado..“Acordei cedo. Ouvi bombas. Era real ou um pesadelo? Infelizmente era real. O Iraque tinha invadido o Koweit”