Recordar as vítimas do Holocausto e combater o antissemitismo

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Assinala-se hoje, 27 de janeiro, o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto. O propósito deste dia instituído pela ONU é o de não esquecer o genocídio em massa de seis milhões de judeus pelos nazis e respetivos colaboracionistas.

Em Portugal, salvo raras e episódicas exceções, este é um dia que decorre como os demais. É pena que assim seja. Há efemérides que, pela sua relevância social, merecem ser assinaladas e vividas coletivamente de forma diferenciada, sobretudo pelos políticos e pelas instituições que estes servem. Nos tempos atuais, em que o antissemitismo cresce, trazer os horrores do passado para o presente, de forma consciente e programada - envolvendo as entidades públicas e abertas ao público, e também as escolas, os municípios, os museus, entre inúmeras outras possibilidades - é a melhor vacina para combater um futuro de ódio e de preconceito.

Este é um bom dia, também, para recordar o exemplo de Aristides de Sousa Mendes, e os milhares de vidas que salvou. Este é um bom dia, também, para a propósito do Holocausto lembrar que a História de Portugal tem igualmente uma mancha ignóbil de antissemitismo no édito de expulsão dos judeus. A História pode efetivamente funcionar como uma bússola política, para que os males do passado não manchem o presente e o tempo que há de vir. Há efemérides que merecem mais do que uma nota de rodapé nos noticiários do dia.

Sejamos claros: o antissemitismo intensificou-se à escala global e é hoje uma realidade preocupante em muitos países, incluindo na Europa e, infelizmente, com episódios crescentes aqui em Portugal, como recentemente explicitou o coordenador Nacional da Estratégia Europeia para Combater o Antissemitismo e Promover a Vida Judaica, João Taborda da Gama.

No rescaldo dos trágicos e fatídicos acontecimentos de 7 de outubro de 2023, quando ataques terroristas lançados sobre Israel, e sobre judeus em particular, a partir de Gaza provocaram um choque global pela sua brutalidade e pela escala do sofrimento infligido a civis, grupos extremistas - tanto à direita, como à esquerda - aproveitaram o momento para reativar narrativas antigas de culpabilização coletiva dos judeus, travestidas de linguagem política ou de suposta militância moral.

Aquilo que deveria ter sido um debate factual e exigente sobre terrorismo, direito internacional e proteção de civis degenerou, em muitos casos, numa onda de hostilidade dirigida a comunidades judaicas fora do Médio Oriente, em países onde essas comunidades não têm qualquer ligação às decisões políticas e militares do governo de Israel.

Foi assim nos atentados terroristas direcionados, especificamente, contra judeus numa sinagoga em Manchester, numa marcha pacífica no Colorado, frente ao Museu Judaico, em Washington, e nas cerimónias de Hanukkah na Praia Bondi, na Austrália, em dezembro do ano passado. Dezenas de vítimas mortais, alheias à intervenção militar de Israel em Gaza, apenas por serem judeus.

A isto há que juntar as dezenas de sinagogas que foram vandalizadas, os milhares de estudantes judeus intimidados em universidades - em Portugal também -, e o facto de que os judeus, individualmente, passaram a ser interpelados como representantes formais de um Estado estrangeiro e, por conseguinte, alvos-legítimos para quem não gosta das ações ou não tolera a existência do Estado de Israel.

Esta lógica de responsabilização coletiva - historicamente uma das marcas centrais do antissemitismo - reapareceu com grande força, alimentada pela confusão deliberada entre identidade religiosa, pertença étnica e posições políticas. Ser judeu voltou, perigosamente, a ser tratado como sinónimo de uma agenda política única e homogénea. Ignorar este perigo é normalizar o que não pode ser normalizado.

Neste clima, a crítica legítima a políticas concretas de um governo - essencial em qualquer democracia - foi frequentemente ultrapassada, transformando-se em desumanização, estigmatização e ódio dirigido a pessoas comuns.

Quando a linguagem abandona a distinção entre Estado e indivíduos, quando o discurso político recorre a estereótipos históricos e quando o sofrimento de uns é relativizado em função de narrativas ideológicas, cria-se o terreno fértil onde o antissemitismo sempre prosperou. É responsabilidade de todos, em particular do poder político, salgar esse chão, para que essas ervas-daninhas não cresçam.

É por isso que o momento atual exige lucidez, responsabilidade moral, pedagogia e memória histórica: para que a indignação em relação às ações de um Estado, que até pode ser legítima, não se transforme, mais uma vez, num instrumento de exclusão e ódio de comunidades e de indivíduos.

Ser judeu não pode ser um estigma, ser judeu não pode ser sinónimo de viver com um sentimento de insegurança e desproteção. É por isso que é importante que o Estado se mobilize para recordar o Holocausto e as suas vítimas. Paremos hoje, todos, como país, um momento para refletir sobre isto. O passado nunca mais se pode repetir.

Presidente da direção da CIL

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