Reapreciar o declínio

A última guerra mundial pareceu confirmar que os EUA eram a casa no alto da colina, a Nação Indispensável, para finalmente entrar neste milénio alimentando um debate interno, e uma preocupação internacional, de grande intensidade, que tende para colocar o declínio geopolítico como primeira causa da perplexidade e inquietação reinantes, que todos identificam, na querela doméstica, com a reivindicação de que lhe restituam a América.

Naturalmente as opiniões são múltiplas, "agora relembradas", mas já tentativamente arrumadas entre os que temem o declínio e os que sustentam estar o antideclínio ao seu alcance. As atenções da opinião pública começam a fixar-se, não apenas nas doutrinas da indispensabilidade nacional, mas também nas conclusões dos inquéritos, designadamente da Foreign Policy, que anunciavam um novo mundo pós americano, em que não encontravam já a hegemonia mundial do seu poder. Para avaliar as consequências deste último facto talvez não seja de esquecer que raros dos países colonizados ou ocupados pelos ocidentais deixarão de encontrar na sua história um equivalente da diligência que os iroqueses fizeram junto do então Presidente dos EUA, lembrando que tinham sido uma poderosa Nação antes da chegada dos europeus à terra que era sua, que estes foram recebidos com fraternidade, mas que posteriormente os tinham reduzido aos poucos que ali estavam a preguntar se também lhes era necessário morrer.

A questão do modelo variável do capitalismo, o dogma de liberdade de iniciativa individual, que afirmam ser a origem da prosperidade americana e da sua hegemonia transbordante, e a proposta crescente é regressar às raízes para eliminar os riscos do declínio. Falta seguramente evitar esquecer que a evolução não aconselha a ignorar que a unidade ocidental inclui a Europa, que o Atlântico, visto o peso de duas guerras mundiais, não é a retaguarda dos EUA a marchar para o Pacifico.

O lema dos males do estatismo crescente (sobretudo o Estado social), a favor dos benefícios do Estado mínimo, com intervenção menos escutada da proposta do Estado suficiente e ético, parece exigir uma arbitragem condicionada pela conjuntura, não apenas política, mas também cultural, admitindo que a experiência anterior ao globalismo sem completa definição que enfrentamos, não fornece experiência de governação que ajude a consolidar as exigências da nova espécie de globo e das suas gentes sem distinção de etnias, culturas, e história, que é aqui "relida".

Conviria ter presente, para ajudar a entender, se possível, a lógica da mudança, que o globalismo se instalou com o regime chinês a fazer conviver princípios contraditórios, e até agora sobreviventes, como Estado forte e socialismo de mercado, um só país e dois sistemas, articulação do poder militar com o poder financeiro em busca do poder soberano clássico. Não parece uma contribuição suficientemente tranquilizante a convicção do famoso John Hobson, que supõe que todos os países antigos titulares da colonização estão conscientes de que foi esgotada a conceção eurocêntrica do mundo, a não ser repetida, porque o importante é que os numerosos investigadores, que buscam um paradigma de reformulação da ordem, consigam responder à pergunta simples de Emanuelle Jonannet - o que é uma sociedade internacional justa? Uma pergunta cuja resposta não pode ser mais demorada em vista da evidente decadência ocidental.

Desde que se concretizou a passagem, no Ocidente, da época dos reis para a época dos povos, entre a crise e o estado de natureza ficou interposta uma constituição, derivada de um paradigma que a antecede, que é uma conceção do mundo e da vida, com os seus valores, de regra implantados depois de uma dolorosa experiência histórica. Esta forma de hierarquia, quer com reconhecimento jurídico internacional, quer limitada a facto de ocupação efetiva, como se passou com a marcha saxónica do Cabo ao Cairo, de regra não fez parte das subordinações de regiões e áreas culturais europeias subordinadas pelos Estados plurais dos ocidentais em expansão, com tensões ainda evidentes, e até crescentes, na Europa em crise dos passados dias. Mas é difícil não reconhecer que, para agora, a globalização surpreendeu e ultrapassou a experiência de governantes formados na história do passado. Uma perceção que regressa.

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