Em conversas recentes com vários músicos dedicados a interpretações orquestrais, tenho alimentado a esperança de um dia ver a minha expressão favorita, aquela que francamente me traz um entusiasmo infantil, a tornar-se banal e a ser frequente nos cockpits dos carros, aos altos berros. Evocando todos os estereótipos possíveis, sonho com o dia em que, no meio dum trânsito intenso, vou parar ao lado de alguém que está de janelas abertas no automóvel a ouvir com satisfação Philippe Jaroussky a interpretar Monteverdi com o ensemble L’Arpeggiata. Portanto, refiro-me a música antiga, aquela que terá sido criada até à segunda metade do século XVIII. Vá, não sou assim tão quadrado e admito incursões musicais noutros séculos, nem que seja para ouvir a Pavane em fá sustenido menor, de Gabriel Fauré, escrita em 1887. Por isso, deixo já uma advertência a quem ousar ler este texto: é um manifesto sobre o caráter divertido que a música feita para orquestra pode ter, para que mais gente passe a ir a concertos daqueles aparentemente chatos, nos quais até parece haver regras de etiqueta que implicam silêncios demorados e roupa requintada. Mais um alerta: é legítimo e se calhar aconselhável que adormeçam, se a música for boa e plácida. Mais ainda: tudo isto é acessível a toda a gente e não implica um conhecimento específico. Como primeiro exemplo de absoluta diversão, sugiro uma busca nas várias redes sociais (isto só vai melhorar os algoritmos, prometo) por Igudesman & Joo. Os leitores mais incautos perante esta sugestão são também os que vão ficar mais agradavelmente surpreendidos. Durante essa investigação, vão encontrar o violinista virtuoso Aleksey Igudesman, nascido em Leningrado, no coração da antiga União Soviética, a tocar de forma magistral e, em várias ocasiões, só com roupa interior. A música vai continuar a ser divertida e a ausência duma indumentária formal só acrescenta uma camada de genialidade à interpretação.Considerando que é um dueto, Igudesman, nestas circunstâncias, aparece em palco com o virtuoso pianista britânico de ascendência coreana Hyung-ki Joo.Numa das rábulas, Joo recorre a um utensílio que, entregue em plena interpretação musical por Igudesman e sem nunca perder o andamento, lhe permite fazer acordes só acessíveis a quem de facto tem mãos enormes. É nesse momento que Joo diz, provocando o riso entusiasmado no público: “Rachmaninoff had big hands (Rachmaninoff tinha mãos enormes).”. Há outros momentos imperdíveis desta dupla, mas estar aqui a descrevê-los não lhes faz justiça. Por isso, insisto na pesquisa, porque vale a pena desconstruir a ideia de que a música habitualmente designada como clássica é elitista. Não é. Implica apenas um processo de dedicação por parte de quem a estudou, para que a interpretação seja tão historicamente informada quanto possível e, por isso mesmo, fiel à intenção dos compositores. Quanto ao público, só tem de desfrutar confortavelmente, seja a dormir ou a rir ou a sonhar.Com a fasquia do riso ultrapassada, há também momentos imperdíveis e irrepetíveis que só são possíveis em concertos de música orquestral.Há um momento, que, entretanto, me foi lembrado pelo fotojornalista do DN Reinaldo Rodrigues, que aconteceu há quase 27 anos, ainda que me pareça que foi ontem. A 19 de maio de 1999, em Amesterdão, nos Países Baixos, a pianista Maria João Pires subiu a palco para tocar o Concerto N.º 23 para piano e orquestra (com a catalogação Köchel 488), de Wolfgang Amadeus Mozart.Esperava-a a orquestra Koninklijk Concertgebouworkest, que naquele exato momento operava sob a batuta do maestro Riccardo Chailly.Quando Maria João Pires se senta ao piano, a orquestra começa a tocar o Concerto N.º 20 para piano e orquestra (Köchel 466), de Mozart, que a pianista não esperava. Os vídeos captados na altura mostram o embaraço da artista sentada ao piano à espera que o seu instrumento seja invocado pelas partituras dos outros músicos. No entanto, Maria João Pires não tem a partitura à frente.Imagino que aquele momento, expectavelmente formal, deva ser muito semelhante a uma circunstância tenebrosa em que alguém teria de discursar numa língua que desconhece perante uma plateia enorme e atenta.Porém, a pianista conhecia a obra, apenas não a tinha preparado e não contava com ela. Durante vários momentos, Maria João Pires despenteia-se, passa a mão pela cabeça, respira, sorri para esconder outras sensações e conversa com o maestro. Por fim, assume: “I’m going to try it (Eu vou tentar).”Por fim, entra no momento certo e não falha nenhuma nota. Nenhum outro género musical possibilitaria isto.Jornalista