Há cerca de uma semana, a Polícia Judiciária (PJ) anunciava o lançamento de uma campanha inédita de combate ao discurso do ódio. Hoje, passou da pedagogia à prática. A operação desencadeada contra o grupo neonazi 1143 demonstra que um Estado de Direito não se limita a condenar discursos - atua quando identifica estruturas organizadas que promovem o ódio, a segregação e a violência.As palavras do diretor Nacional da PJ são inequívocas e assentam na memória, nos dados e na experiência acumulada. Em 1995, uma estrutura semelhante esteve ligada ao homicídio de Alcindo Monteiro. Em 2007, apesar de condenações pesadas, o fenómeno não desapareceu. Em 2016, novas investigações revelaram membros repetidos, continuidades, adaptações. O que falhou, reconhece implicitamente a instituição, foi a capacidade de interrupção sustentada: a reinserção não travou a reorganização. A mesma estrutura manteve-se, alargou-se, ganhou estabilidade no tempo.Hoje, a realidade é ainda mais preocupante. Em poucos anos, Portugal passou de uma dezena de crimes de ódio por ano para um número sete vezes superior. Há associações com fundadores, chefias, membros, apoio logístico, financiamento, distribuição de funções e uma ideologia assumidamente neonazi, baseada na segregação de parte da população. Há um sentimento de pertença, uma identidade, uma imagem de marca. E há, sobretudo, uma estratégia definida.É aqui que a operação ganha verdadeiro significado. A PJ não esperou pelo “crime de resultado”. Não esperou por mais mortos, como no caso de Alcindo Monteiro, por mais feridos com sequelas para a vida, como aconteceu em 2015 com um militante comunista. Como explicou o seu diretor Nacional, quem investiga este tipo de criminalidade procura interromper a atividade antes da violência consumada. Defender a integridade das pessoas é o núcleo da missão.Também por isso, a investigação não foi suspensa, nem adiada, pelo calendário político. A campanha presidencial em curso não condicionou a atuação da polícia criminal. Este é um princípio essencial numa democracia madura: a separação entre a disputa política e a aplicação da lei. A PJ investigou, reuniu indícios, atuou - como deve fazer, independentemente do ruído público. Mas esta operação é igualmente um aviso institucional. Ao próximo Presidente da República, aos decisores políticos e à sociedade.O extremismo violento existe, organiza-se e aprende com o tempo. Não é apenas retórica inflamada nas redes sociais. É uma realidade estrutural, persistente e com capacidade de mobilização. Ignorar este alerta seria um erro grave. E podemos até pensar que há destinatários no espaço político e no debate público atual.Quem tem relativizado o discurso extremista ou o tem tratado como mero debate de ideias será agora confrontado com um dado objetivo: estruturas organizadas, com continuidade no tempo e capacidade de mobilização violenta.A pergunta é simples: saberão esses responsáveis ouvir os avisos das autoridades e reconhecer que a liberdade de expressão termina onde começa o incitamento ao ódio e à violência?O artigo 240.º do Código Penal existe precisamente para isso. Para proteger pessoas e comunidades antes de ser tarde. Para impedir que a história se repita sob novas siglas. O maior risco, agora, seria transformar tudo isto num debate estéril sobre opiniões, reduzindo uma investigação sustentada a um exercício de retórica sobre liberdade de expressão. Se esse for o desfecho - se se concluir que nada disto passou de palavras -, então não falhará apenas a Justiça. Falhará o Estado. E falhará a democracia.