Quando a distopia se transforma em realidade

Winston Smith, criado em 1949 por George Orwell, viveu num livro uma vida distópica em 1984. Tivesse ele esperado mais 37 anos e o livro onde viveu ganharia vida!

Falo dos novos xerifes que patrulham a cidade de Singapura. São robôs. Não são polícias a sério. Mas têm nome. Mas se têm nome não serão pessoas? Não.

São provavelmente os novos funcionários do "Ministério da Verdade" deste país asiático, que ao contrário de Winston não querem em segredo revoltar-se contra o Grande Irmão, munido de robôs equipados com câmaras que permitem detetar "comportamentos sociais indesejáveis" como por exemplo abandonar uma trotinete numa ciclovia ou fumar em locais interditos. Michael Lim, o gestor desta alarvidade social, diz que o Xavier será a nova arma contra a insegurança. Será?

Ao que parece estes polícias mecânicos, tecnologicamente avançados, são vistos com banalidade pelos habitantes locais, que aos olhos do ativista Lee Yi Ting, torna a distopia ainda mais distópica.

Esta solução tecnológica não é a primeira a coabitar connosco no nosso quotidiano. Em Paris, já se pode comer piza num restaurante com staff inteiramente oriental, que é como quem diz, robôs! Robôs carregados de tecnologia, chips e mecânica asiática que equipam um diner italiano em França. Curioso!

No Hawai as ruas são patrulhadas por um cão-robô que segundo parece tem como principal objetivo medir a temperatura aos sem-abrigo de modo a detetar casos de covid-19 entre os mais desfavorecidos. Parece-me ser uma solução nobre, mas... e o que virá a seguir?

Na Finlândia, a Amazon já faz entregas através de equipamento 100% robotizado.

E no Japão, através de machine learning, há uma série de "braços mecânicos artistas" que após analisarem uma série de vídeos dos atletas olímpicos, copiam os seus movimentos em padrões, criando os tradicionais jardins zen.

Caminhamos claramente para uma coabitação do mundo entre humanos e robôs. Terá vantagens, mas compete-nos a nós entender até aonde pode ir a nossa arrogância criadora de modo que as desvantagens sejam menorizadas.

Resta-nos aprender com os clássicos, pois já tudo foi escrito e descrito de forma muito clara e minuciosa, não achas caro Winston Smith? Passaram-se 72 anos depois da tua aparição, e pudesses tu saltar do teu livro, que te arriscavas a comer piza com parafusos ou a levar uma dentada mecânica.

Designer e diretor do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação
da Universidade Europeia

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