Quando a direita deixa de se reconhecer no seu próprio candidato

O apoio de figuras conservadoras a António José Seguro expõe uma fratura profunda no campo político da direita portuguesa e levanta uma questão essencial: quem representa hoje, afinal, a direita democrática em Portugal?
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Creio ser pertinente analisar o apoio manifestado por diversas personalidades associadas à direita política portuguesa a António José Seguro, sobretudo quando esse apoio surge em detrimento de um candidato que, à partida, pareceria ideologicamente mais próximo.

Em primeiro lugar, importa relativizar a ideia de que todas as figuras provenientes do PSD possam ser tomadas como representantes da direita política. A social-democracia, enquanto corrente ideológica, não se enquadra no campo da direita. Pelo contrário, situa-se historicamente no centro ou no centro-esquerda do espectro político, razão pela qual uma parte significativa dos militantes e simpatizantes do Partido Socialista se identifica, precisamente, como social-democrata. Nessa medida, não surpreende que algumas dessas personalidades apoiem um candidato igualmente de centro-esquerda, moderado, institucional, geralmente percecionado como sensato e equilibrado — por vezes até excessivamente contido.

Mais relevante, contudo, é o apoio expresso por figuras que se reclamam de uma direita conservadora. Esse fenómeno merece uma análise mais aprofundada, cuja conclusão me parece clara: André Ventura não representa a direita.

Eleito em 2019 à frente de um partido inicialmente identificado como conservador-liberal, André Ventura contou, numa fase inicial, com o apoio de quadros provenientes de uma direita conservadora tradicional — pessoas com percurso profissional consolidado, sentido institucional e referências ideológicas estruturadas. Contudo, rapidamente transformou o Chega num projeto de natureza eminentemente pessoal, afastando esses elementos e conduzindo o partido por uma deriva ideológica que se aproxima perigosamente de matrizes nacional-socialistas.

Com efeito, o seu discurso e as suas propostas revelam traços contraditórios com qualquer conceção clássica de direita: a defesa de um Estado assistencialista, com promessas indiscriminadas de subsídios; a nacionalização ou manutenção sob controlo estatal de empresas estratégicas, como a TAP, após sucessivos volte-faces; a hostilização do setor privado, patente na proposta de taxação de alegados “lucros extraordinários”; e, ainda, uma visão autoritária do poder público, expressa em propostas de confinamento compulsório e numa conceção do partido como entidade fiscalizadora da vida social.

O crescimento da notoriedade de André Ventura não resultou da apresentação de um projeto político coerente ou de soluções estruturadas para os problemas do país, mas antes da exploração sistemática do choque mediático, da polémica e, frequentemente, da provocação. O destaque que lhe foi concedido pela comunicação social assentou mais na aversão que despertava do que na consistência das suas ideias.

Uma direita conservadora séria não se reconhece num discurso centrado quase exclusivamente em minorias étnicas ou religiosas, nem num candidato incapaz de apresentar propostas substanciais para a reforma da justiça, da educação, da saúde ou da segurança interna. Declarar apoio às forças de autoridade sem demonstrar, de forma concreta, como esse apoio se traduz em políticas públicas eficazes não constitui ação política; é apenas retórica populista, destituída de valor transformador.

André Ventura não representa a direita; representa, quando muito, os órfãos de uma direita radicalizada e uma massa de cidadãos profundamente descontentes e revoltados — um sentimento legítimo, sem dúvida. Contudo, sem uma direita capaz de dialogar, de estruturar propostas e de governar com responsabilidade, o aumento do tom de voz e a teatralização do discurso político não produzirão mudança real.

Portugal necessita de uma verdadeira refundação da direita: uma direita com identidade, sentido de Estado e ambição reformista — e de líderes que pretendam, de facto, elevar o país, e não apenas explorar o seu descontentamento.

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