Portugal não está preparado

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Não está preparado para incêndios, nem para tempestades, nem para apagões, nem para secas prolongadas. Não está preparado para lidar com qualquer desastre de grande escala. O que aconteceu com a tempestade Kristin não foi um episódio isolado, foi um sintoma. A resposta foi improvisada, descoordenada, claramente insuficiente. Não revela apenas falhas operacionais, revela uma ausência de planeamento estrutural.

Sabemos, há muito, que Lisboa corre o risco real de voltar a sofrer um terramoto de grandes dimensões, semelhante ao de 1755. Os estudos existem. O conhecimento científico existe. O que não existe é uma política pública consequente que transforme esse conhecimento em prevenção, preparação e resposta organizada. Sabemos muito mais do que aquilo que fazemos com o que sabemos.

A ciência tem sido clara, há décadas, sobre os efeitos das alterações climáticas. Tempestades mais frequentes, fenómenos extremos mais violentos, impactos cumulativos sobre infraestruturas e populações. Ainda assim, o debate político continua a tratar a prevenção climática como um incómodo ideológico. Basta olhar para propostas recentes da direita liberal, que desvalorizam ou secundarizam a questão climática, para perceber que o problema não é falta de informação, é falta de vontade política.

Quando a calamidade chega, é para o Estado que olhamos. Não como pai, mas como sócio. Entregamos-lhe uma parte significativa do nosso rendimento todos os anos, aceitamos uma carga fiscal elevada e, em troca, exigimos capacidade de planeamento, investimento em prevenção e responsabilidade na gestão do risco. Discursos sobre cortar, emagrecer e fragilizar o Estado podem ser eficazes em campanha. Numa emergência, revelam-se desastrosos.

Nenhum governo tem respostas perfeitas. A política é feita por pessoas, com agendas, limitações e erros. Mas a degradação do serviço público, a desvalorização do planeamento e a indiferença perante o conhecimento científico não são inevitáveis. São escolhas. E aqui a responsabilidade também é nossa. Elegemos por falta de alternativas, não exigimos organização cívica consistente, não construímos debate com ambição colectiva. Debatemos para marcar posição, para ganhar razão, não para construir soluções.

Vivemos numa forma de violência pouco inteligente, feita de ruído, desinformação e empobrecimento do pensamento. Talvez por isso seja surpreendente que a democracia ainda resista. Pessoas qualificadas afastam-se da política, restam alguns resistentes movidos por convicção e uma maioria instalada numa mediocridade confortável, que prefere cidadãos cansados, mal informados e resignados.

Pensar o futuro é hoje uma urgência dupla: para prevenir calamidades de origem climática e para prevenir derivas políticas pouco democráticas. Um país que não se prepara para responder a desastres naturais também não se prepara para responder a desastres políticos. A erosão da democracia não acontece de repente. Acontece na mesma lógica de improviso, desresponsabilização e recusa em encarar a realidade.

Precisávamos de estar já organizados para o que aí vem. Com seriedade, com conhecimento, com compromisso democrático. Sem isso, continuaremos vulneráveis a tudo. E a queixa, por mais legítima que seja, não nos salvará.

*Jornalista e escritora

Diário de Notícias
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