Entre junho e dezembro de 2018, Marcelo Rebelo de Sousa reuniu-se com Donald Trump na Casa Branca, foi recebido por Vladimir Putin no Kremlin e acolheu Xi Jinping em Lisboa. Tendo em conta que com o regresso de Trump, faz amanhã um ano, o cenário global é cada vez mais moldado pelo “fator Putin-Trump-Xi” (notável frase síntese de um diplomata), fica evidente como o acesso do Presidente da República às figuras que influenciam o mundo é importante para Portugal. Um acesso que é baseado na condição de chefe do Estado, reforçada por ser eleito por sufrágio direto. E se a Constituição é clara na questão da Defesa, em que o Presidente é o chefe Supremo das Forças Armadas, também lhe dá margem para protagonismo diplomático, que não se limita a aceitar credenciais de embaixadores, longe disso. Daí ser crucial saber o que pensam dos desafios internacionais os candidatos que dia 8 de fevereiro vão disputar a segunda volta das presidenciais. Como vão lidar com o tal “factor Putin-Trump-Xi” que é “a combinação da ameaça à nossa segurança, que representa o sr. Putin, as consequências negativas do distanciamento dos EUA em relação à Europa e, em terceiro lugar, o ressurgimento da China como um ator global”, nas palavras de João Vale de Almeida, ex-embaixador da União Europeia nos EUA e na ONU. Olhando para a campanha, até agora sabemos pouco mais do que estarem a favor do rearmamento da Europa e pouparem nas críticas a Trump. Com nuances explicadas pelas respetivas famílias políticas de origem. O que pensam agora do papel da UE? Como veem o futuro da NATO? Subscrevem que o multilateralismo é importante para um país como Portugal, assumido construtor de pontes, ao ponto de ser candidato a um assento não-permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas?Lembrarão alguns que o presidente português, ao contrário dos homólogos americano, russo e chinês, ou francês, não detém o poder executivo; que, cá, quem chefia o Governo é o primeiro-ministro.Sim, é verdade: nos EUA o presidente é também o chefe do governo. E em França o presidente tem um papel executivo que se sobrepõe ao do primeiro-ministro. Portugal, que em 1976 optara por uma Constituição semipresidencialista, até fez logo uma revisão com o intuito de reduzir os poderes de Belém. “1982 significou uma substancial redução dos poderes presidenciais, sobretudo quanto a um ponto decisivo: é que até 1982 o governo era responsável politicamente perante o Presidente da República. Ou seja, o Presidente podia pedir contas”, disse-me, em recente entrevista, Vital Moreira, lembrando que era, na época, Presidente Ramalho Eanes e que a revisão foi acordada entre Pinto Balsemão e Mário Soares.Ora, Soares, que depois como presidente criou a “magistratura de influência”, nunca deixou de usar a condição de chefe de Estado para promover a posição de Portugal, seja de forma espetacular, como na visita à Índia em 1992 em que foi fotografado a andar de elefante e com turbante de marajá, ou, mais discretamente, como em 1995, ao almoçar num dia com o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, em Israel, e jantar no outro com Yasser Arafat, em Gaza.Exímio a construir pontes, Soares chegou a sublinhar em entrevista que “o Presidente da República é o mais alto representante de Portugal na ordem externa”, mas que para evitar conflitos com o Governo exerceu esse poder com “moderação e parcimónia”.Habituado a buscar apoios internacionais quando era opositor ao Estado Novo, defensor, como ministro dos Negócios Estrangeiros, dos laços com a América no pós-25 de Abril, e promotor, como primeiro-ministro, da adesão Europeia, poderíamos dizer que Soares foi excecão no protagonismo presidencial na política externa, mas isso seria esquecer como Jorge Sampaio condicionou Durão Barroso no apoio à intervenção americana no Iraque. Apesar de o primeiro-ministro ter sido o anfitrião da Cimeira das Lajes de 2003, em que George W. Bush decidiu o derrube de Saddam Hussein, o presidente português, que defendia o aval da ONU à guerra, impôs que se enviasse para o Iraque a GNR e não o Exército. Este historial serve para realçar como é vital conhecer o que pensa sobre Política Externa e de Defesa quem procura assumir a Presidência da República num contexto de paralisia do Conselho de Segurança da ONU, de crise nas relações transatlânticas, de esforço armamentista na UE e de potencial conflito no Indo-Pacífico. “O Presidente próximo encontra o mundo e a Europa numa situação mais complicada do que eu encontrei”, fez questão de dizer na sexta-feira quem está agora de saída, em jeito de alerta para quem tenta entrar em Belém. Diretor-adjunto do Diário de Notícias