Por que se repetem estes motins?

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É melhor puxarmos pela memória. 1991/92 - Um negro deitado no chão é violentamente espancado por agentes da polícia de Los Angeles, Estados Unidos da América. Alguém filma a pancadaria e envia-a para uma estação de notícias local. A passagem na televisão do espancamento de Rodney King terá exatamente o mesmo efeito que hoje tem este tipo de vídeos quando são espalhados, à velocidade da luz, pela internet, que nessa época ainda nem existia: uma onda de indignação perturba de tal modo a opinião pública que os quatro polícias são acusados, julgados... mas inocentados.

Os célebres distúrbios desse tempo não ocorreram por causa do espancamento em si, mas por causa dessa decisão do tribunal. A comunidade afro-americana acusou a Justiça de ser parcial e vingou-se nas ruas. Os distúrbios provocaram 63 mortes, mais de 2300 feridos, levaram à cadeia mais de 12 mil pessoas, houve muitos automóveis queimados, lojas destruídas e roubos oportunistas. No final, dois dos polícias acabariam por ser condenados a penas de prisão e Rodney King recebeu uma indemnização de 3,8 milhões de dólares.

2005 - Dois adolescentes, Zyed Benna (17 anos) e Bouna Traoré (15), de origem imigrante, mas nascidos em França, morrem eletrocutados no interior de uma subestação elétrica ao tentar esconder-se de uma perseguição policial por tentativa de furto numas obras. Um inquérito posterior concluiu que eles não cometeram nenhum crime, mas que fugiram simplesmente porque viram a polícia e esta segui-os com base em falsas suspeitas, pouco fundamentadas.

Os distúrbios que se seguem durante dias, convocados em grande parte por mensagens de telemóvel, espalham-se por várias cidades francesas. São, nessa época, os maiores motins na Europa desde o maio de 1968 e causam três mortes, levam a 2921 detenções e provocam muitos estragos. Dez anos depois os polícias são ilibados em tribunal.

2011 - Mark Duggan, cidadão britânico de origem caribenha, pai de 4 filhos, foi baleado pela polícia, que tentava detê-lo por suspeita de tráfico de droga e de pertencer a um gangue. Os agentes pararam um táxi onde ele viajava e balearam-no. As explicações que posteriormente foram dadas não convenceram ninguém e multidões impulsionadas pelos sistemas de mensagens Blackberry e Twitter participam durante vários dias em distúrbios que eclodem em várias cidades inglesas e provocam 5 mortes, 200 feridos, mais de três mil presos e qualquer coisa como 2800 casas e lojas vandalizadas. Os polícias que mataram Duggan foram absolvidos.

2020 - De volta aos Estados Unidos: George Floyd, um afro-americano, é assassinado pelo polícia de Minneapolis Derek Chauvin, que imobilizara Floyd no chão e ajoelhara-se em cima do pescoço dele durante oito minutos e quarenta e seis segundos. Três outros polícias ajudaram ou assistiram à cena, enquanto Floyd, antes de morrer, implorava repetidamente "I can"t breathe!" ("Não consigo respirar!").

Vários transeuntes gravaram toda a cena com os telemóveis e as imagens e sons espalharam-se pela internet. Os protestos que se seguiram iniciaram-se com uma onda de distúrbios em várias cidades norte-americanas que provocaram 26 mortos e 14 mil prisões. A 19 de abril de 2021 Derek Chauvin foi condenado a 22 anos e meio de prisão.

2023 - O jovem Nahel M., 17 anos, mais um descendente da imigração argelina para França, é morto durante uma fiscalização de trânsito por um disparo policial quando conduzia um Mercedes Classe A. Desde o dia 27 de junho que os protestos nas ruas de várias cidades francesas acumulam, ao dia de ontem, 3486 prisões, 808 feridos entre polícias, 269 ataques a instalações policiais, 1105 edifícios danificados, 5892 incêndios de viaturas e 12 202 incêndios em vias públicas. O Ministério do Interior francês não deu dados atualizados de feridos entre manifestantes, mas adiantou que menos de 10% dos detidos são, nas palavras do ministro Gérald Darmanin, "estrangeiros".

Já li que a atual questão dos motins em França tem causas especificamente gaulesas; que é um problema singular da era das redes sociais, que há muitos delinquentes "negros", que os jovens vão para as ruas partir coisas por incompetência educacional dos pais, que tudo é culpa da polícia que exagera...

Não. O problema destes recorrentes motins, dos Estados Unidos a França, resulta da incapacidade dos países do ocidente em aceitar viver, sem dominar e subjugar, tudo o que lhe pareça estrangeiro e inferior, mesmo que tenha nascido na sua pátria. A revolta indigna, mas tem uma causa clara: racismo é o nome que se lhe dá.

Jornalista

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