Por dentro dos temporais

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A sucessão de tempestades que têm mortificado e destruído pessoas e bens por todo o nosso país assumiu uma tal dimensão que, naturalmente, se veio entrosar com a eleição presidencial, modificando os focos das campanhas e talvez os sentidos de voto dos eleitores (será?).

Tenho tendência a acreditar que neste momento as decisões dos eleitores estão já tomadas, muito mais do que na primeira volta, porque a dicotomia é clara e inequívoca. Não quer isto dizer que eu esteja tranquilo, porque nunca devemos facilitar. Mas a influência dos desastres ocorridos irá pesar mais no julgamento que será feito pelas populações sobre as reações dos poderes públicos, nacionais e locais, aos desastres em curso, do que no seu juízo sobre os candidatos à Presidência da República.

Nunca esquecerei a magnitude da manifestação de pesar dos portugueses pela trágica morte de Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, no fatal acidente de Camarate em 1980. Mas a expressão desse pesar coletivo não influiu na decisão dos eleitores para a Presidência da República, eleição essa que teve lugar pouco depois daquele acontecimento e que veio confirmar a vitória do general Eanes sobre o candidato de Sá Carneiro e da AD, o general Soares Carneiro.

Não deixa de ser dificilmente previsível o resultado do próximo escrutínio: há uma margem de votantes nos candidatos que não chegaram à segunda volta que irá, pelas suas transferências de voto ou pelas suas abstenções, determinar a eleição. Mas não creio que a situação de catástrofe que domina o país, e que necessariamente veio desviar as atenções públicas, influencie as escolhas que se vão pôr no dia 8.

O que é preocupante, e é um fenómeno universal, é o domínio das mensagens transmitidas pelas redes sociais sobre uma fração significativa do espaço público. A deformação dos factos, as “verdades” alternativas, as calúnias, sempre existiram e tiveram a sua expressão nos combates políticos. O que é novo, sabemo-lo bem, é a extraordinária eficácia dos modernos meios informáticos na “violação das massas pela propaganda política” que Tchakotine já descrevia, em livro com o mesmo título publicado em 1939.

Goebbels e Estaline teriam hoje meios técnicos muito mais sofisticados, não apenas para uma propaganda eficaz dos seus regimes totalitários, mas sobretudo para minar a confiança dos cidadãos nas instituições democráticas. A distância que cresceu nos últimos anos entre um poder político, crescentemente refém dos poderes financeiros, e uma massa de descontentes que se não sentem representados pelas nossas democracias, deu campo e alimento para reforçar as tendências populistas de direita, que também não são absoluta novidade (lembram-se de Pierre Poujade?), mas dispõem hoje de uma “internacional do caos” (expressão de Da Empoli), bem financiada e doutrinada e beneficiando dos recursos extraordinários que lhes proporciona a internet.

Está ainda e estará sempre nas nossas mãos resistir e combater essa rede de construtores do caos que visa destruir as nossas liberdades. E esse combate, que tem de definir bem os seus alvos (porque os meios técnicos dependem afinal de quem melhor os utiliza) e que não pode ter tibiezas nas suas denúncias, em cada escolha que fizermos virá pedir a nossa participação.

Vamos todos votar no próximo dia 8, faça chuva ou faça sol!

Diplomata e escritor

Diário de Notícias
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