Pobres professores do futuro

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Vai estando em negociação, em modo muito lento, um novo Estatuto da Carreira Docente (ECD). Parece que será para entrar em vigor em 2027, um ano para o qual anda a ser remetida muita coisa em matéria de Educação, incluindo matérias curriculares, de estrutura dos ciclos de escolaridade e mesmo da gestão escolar. No caso do ECD, não sei se é para marcar os 20 anos da versão anterior, de 2007, de muito má memória para a classe docente. O que pode ser um péssimo sinal.

Se fazer uma revisão deste tipo com calma e ponderação parece certo, já desperta desconfiança a “articulação” desse novo Estatuto com uma vaga de outras medidas, desde a chamada “reforma do Estado” às leis laborais, passando pela multiplicidade de micro-medidas tomadas para tentar remendar a falta de professores. E é por isso que me sinto preocupado em relação aos professores do futuro, porque aos da minha geração já pouco surpreende ou sobra para fazer pior, além do oculto desejo de nos obrigar a ficar no activo até não conseguirmos ter actividade alguma.

Não me refiro a questões como as que, de forma extemporânea, tiveram alguma circulação nas redes sociais sobre um pretenso fim do vínculo público dos professores, algo que extrapola de modo, por enquanto, delirante a situação concreta ou ignora o que se passa com os professores contratados há anos.

Refiro-me à menorização do papel do professor na sociedade e nas próprias escolas, se passarem a definitivas (como é usual) medidas apresentadas como sendo de “emergência”, desde logo a redução dos critérios académicos para exercer a docência. O argumento de se exigir uma “licenciatura” esconde que ela pode nem estar relacionada com a área disciplinar, bastando umas dezenas de créditos mais ou menos aparentados com essa área. Se acrescentarmos a excitação com as potencialidades da Inteligência Artificial e dos “tutores digitais”, cruzando-a com as correntes pedagógicas construtivistas, ficamos com o caminho aberto para o professor não passar de um mero acompanhante dos alunos na sala de aula, erodindo ainda mais o seu estatuto profissional.

De pouco adiantará uma vinculação acelerada ou melhores condições salariais no início da carreira, se esta for estruturada de modo a impedir um horizonte de progressão alargado e a negar uma aposentação em condições dignas. Será como garantir que um bebé terá boas condições ao nascer, mas que verá o crescimento limitado por motivos exógenos e que ao chegar à velhice será deixado ao abandono.

Tudo isto é possível graças à aposta na combinação da indiferença de uns (os mais velhos, ansiosos por partir) com a ignorância de outros (os novos, ansiosos por qualquer garantia, mesmo que ilusória), acrescendo o que está a ser feito para “reconfigurar” a classe docente no sentido de a fragilizar e reduzir a uma massa acrítica, intercambiável e substituível por um qualquer holograma.

Professor do Ensino Básico.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

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