‘Pizza master’

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No Brasil só se fala em pizza. Não, não se celebra o dia, o mês ou o ano do prato originário de Nápoles que os brasileiros - e o mundo - adotaram como seu. Não, a pizza não é um prato típico do Carnaval, que já está há, pelo menos, um semestre em minuciosa preparação no país que mais o ama. E não, não há nenhum défice nos supermercados de pão, de tomate ou de queijo, os mais básicos ingredientes do prato.

Fala-se em pizza a propósito do escândalo em torno do Banco Master, cujas fraudes e consequente falência decretada pelo Banco Central nos últimos dias de 2025 podem arrastar para a lama membros do poder executivo muito próximos de Daniel Vorcaro, o banqueiro detido pela polícia.

E do poder legislativo, porque meio Congresso, sobretudo os parlamentares do chamado Centrão, grupo que cai para a esquerda ou para direita conforme lhe convém, são unha com carne com ele.

E do poder judicial, porque familiares de juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) eram sócios de empresas da instituição em causa.

E da alta finança, porque se descobriram ligações obscuras entre a Faria Lima, espécie de Wall Street paulistana, fundos de investimento de risco e um esquema de lavagem de dinheiro de corporações ligadas ao Primeiro Comando da Capital.

“As investigações sobre o Banco Master avançam para acabar em pizza e o problema não é falta de provas, mas excesso de gente poderosa envolvida”, escreveu o jornalista Wilson Silvestre, no jornal O Hoje.

“Querem assar uma pizza do tamanho do Maracanã no Caso Master”, disse Armínio Fraga, antigo presidente do Banco Central, ao jornal O Estado de S. Paulo.

A revista Oeste chamou a Dias Toffoli, o juiz do STF com ligações familiares ao Master - que chamou a si o controlo das investigações, - “pizzaiolo”.

“Toffoli está assando pizza sabor STF para servir aos amigos do Master”, opinou Leonardo Sakamoto, colunista do UOL.

Está na hora então de explicar a origem da expressão “acabar em pizza”. Nos anos 60 do século passado, dirigentes do Palmeiras reuniram-se para discutir a situação do clube de futebol preferido da colónia italiana de São Paulo.

Depois de 14 horas de ruidosas intervenções sobre problemas aparentemente insolúveis, os dirigentes, exaustos e esfomeados, decidiram ir a um restaurante nas imediações da sede pedir 18 pizzas gigantes e muitas garrafas de vinho para acompanhar.

Resultado: os problemas aparentemente insolúveis resolveram-se, as ruidosas intervenções foram substituídas por gargalhadas e os dirigentes saíram do restaurante abraçados e reconciliados.

Milton Peruzzi, jornalista da Gazeta Esportiva, titulou então “Crise no Palmeiras acaba em pizza”. E a expressão colou.

“Acabar em pizza” é, portanto, mais ou menos equivalente ao muito português “ficar tudo em águas de bacalhau”, e serve de metáfora para impunidade. Tudo graças àquelas 18 “pizzas gigantes” - ou, como são chamadas hoje em dia nas pizarias gourmet paulistanas, às 18 “pizzas master”.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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