Pimenta e refresco

Já muita tinta correu sobre o tema do dia. E apesar de circularem "memes" nas redes sociais sobre os antigos especialistas em COVID, agora novos "experts" no tema Afeganistão, certo é que o assunto merece atenção e está envolto em complexidade. Daí, vale a pena tentar acrescentar alguma coisa.

O envolvimento dos Estados Unidos em qualquer conflito leva normalmente ao renascimento daquela "minoria ruidosa". A posição dessa é fiel a si própria: os EUA agem com a mania que são os "polícias do mundo". Portanto, a retirada negociada dos americanos do Afeganistão é um ato que traz de volta essas vozes divergentes.

Pode dizer-se que para além de unir ideologias da esquerda à direita, esta "posição divergente" consegue ir mais além: congrega os antiamericanos primários (não sendo a totalidade, estará perto disso), sejam os que apoiam o bloco sino-russo ou os que por inépcia não conseguem assumir a posição da administração estadunidense.

Talvez por essa razão Biden disse na sexta-feira passada que só uma grande nação poderia levar a cabo uma retirada desta envergadura. Salientou concretamente que saíram os EUA, os aliados da NATO e acrescentou que os 6.000 soldados americanos que asseguram o aeroporto extraíram também a coluna militar francesa.

Olhando ao custo da guerra no Afeganistão, e de acordo com as contas apresentadas pela Casa Branca, foram gastos qualquer coisa como 150 a 300 milhões de USD por dia. Manter uma guerra implica muitos dólares e muitas pessoas. Homens e Mulheres que colocaram as suas vidas em risco numa terra distante e ao longo de 20 anos.

A industria militar norte-americana assume uma importância relevante, mas o dólar teima em não se valorizar face aos seus concorrentes. A Administração Biden/ Harris conseguiu em 6 meses criar mais de 4 milhões de postos de trabalho, todavia parece ser necessário um pouco mais para ajudar as famílias.

Recordo o lema: "nem mais um soldado para as Colónias!". Mais do que lembrar, concordo com ele. Sem elencar razões de ordem interna, pense-se no Afeganistão: será legítimo que haja soldados a 12.000 quilómetros de casa numa luta que dura há duas décadas?

Recue-se a 2001. A guerra então declarada ao Afeganistão, por George W. Bush, tinha como propósito destruir a Al Qaeda e o seu líder Bin Laden. Factos demonstram que esses objetivos estratégicos aconteceram. O ex-líder da Al Qaeda foi assassinado e a sua organização desagregada. Depois disso foram só perdas, tanto ao nível de vidas como de biliões de dólares. Estima-se um custo direto de 2 triliões de dólares e 6 triliões indiretos - até 2050.

A 2 de maio de 2011 em Bilal, Paquistão, dá-se a operação "Neptune Spear" em que as forças especiais americanas puseram fim ao seu propósito com a guerra declarada 10 anos antes. Daí até o presente seguiram-se mais 10 anos naquela que se tornou a mais longa guerra da história americana.

A nível pessoal, regozijo-me com o facto de saber que as famílias já não enviarão os filhos para combater numa guerra no "fim do mundo". É uma pimenta forte que não aprecio. Não são os meus filhos, mas são os de alguém. E iam batalhar por uma causa cujo principal objetivo já foi alcançado há uma década.

Mesmo com a dificuldade inerente a uma retirada de um cenário de guerra - seja ele qual for -, é refrescante ver como a administração Biden/ Harris colocou o seu povo em primeiro. Fê-lo sem deixar de dar enfâse aos aliados e aos afegãos que durante 20 anos colaboraram no sentido de tornar o país num Estado mais democrático ou, por outro prisma, mais ocidentalizado.

Espera-se encarecidamente que os talibã façam da anunciada moderação uma realidade e que o país não entre em colapso por via da guerra civil. Para além das dificuldades internas, aguarda-se com expectativa as movimentações estratégicas (já em curso) por parte da Rússia e China. Alguém irá "tomar o espaço" que os EUA em breve deixarão livre.

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