Parecer da DGS para quê? Afinal quem decide são os pais, diz Marcelo!*

*E na Madeira é o Governo Regional que tem boa ciência. Que é como quem diz, aquela que estabelece o que dá jeito aos políticos.

Começo com uma espécie de declaração de interesses: sou totalmente a favor da vacinação (seja ela qual for, desde que aprovada pelas autoridades competentes); estou eu próprio vacinado contra a covid-19 (vacina da Moderna); de tudo o que já li sobre o assunto, as vacinas de RNA mensageiro (como as da Pfizer e da Moderna) são uma maravilha científica com um potencial de aplicações que ainda agora começámos a explorar no combate a várias doenças.

Dito isto...

É absolutamente inacreditável o que se está a passar na Madeira com a vacinação aos adolescentes.

E é incrível ouvir o Presidente da República afirmar que cabe aos pais decidirem se os seus filhos com menos de 16 anos devem ou não ser vacinados com estes inoculantes.

Não que nada disto verdadeiramente surpreenda. Afinal, depois de o primeiro-ministro ter afirmado, preto no branco, durante o debate do Estado da Nação, no Parlamento, que a vacinação destes jovens iria mesmo ter lugar, pouca gente duvidou que tal não aconteceria. Isto independentemente do que dissesse a Direção Geral da Saúde -- e a ciência na qual os seus pareceres (supostamente) se baseiam.

Apesar de tudo, na sexta-feira, a declaração de Graça Freitas foi bem mais cautelosa do que cheguei a prever: recomenda as vacinas para os jovens apenas quando estes sofram de doenças graves, desaconselhando para todos os outros.

A diretora-geral da Saúde, aliás, reconheceu que são "precisos mais dados" para que seja tomada uma decisão mais definitiva.

Dito de outra forma, a ciência pura e simplesmente não sabe ainda dar boa resposta a esta questão. Os jovens de 12 anos estão em crescimento, o seu sistema imunológico está em evolução e existe um risco (muito provavelmente reduzido) de a vacina, ao mexer no seu ADN relacionado com esta área, ter efeitos ainda imprevisíveis a longo prazo.

Tendo em conta o baixo risco de doença grave de covid deste grupo etário (a não ser que o indivíduo em causa tenha uma doença grave associada), a vacina não é -- pelo menos até ver -- aconselhada. Faz sentido, é de elementar bom-senso.

Este sábado, no Brasil, Marcelo Rebelo de Sousa, do alto da sua sapiência científica adquirida nas cadeiras de Direito, virou o argumento ao contrário: a DGS não proibiu, logo é permitido.

Assim, cabe aos pais decidirem se querem que os seus filhos sejam ou não vacinados, disse o sr. Presidente. Porque, como é claro de ver, os pais sabem muito mais de ciência e de medicina do que os técnicos da DGS que emitiram o parecer -- e do que todos os pediatras que têm vindo a mostrar reservas nas últimas semanas sobre a vacinação massiva de crianças nesta altura, tendo em conta o que se sabe!

Entretanto, os mesmos pais veem o Arquipélago da Madeira simplesmente a ignorar a DGS e a avançar com as vacinas para os miúdos. E com muitos elogios pelo "sinal de maturidade" que estes deram por terem ido à pica.

Ok, vamos lá ser sérios...

Quase de certeza que não vai nascer nenhum terceiro olhinho na testa ou coisa que o valha a estes jovens por levarem a vacina da covid.

Mas na realidade ninguém sabe exatamente que consequências a 10 ou 20 anos este fármaco pode ter na vida deles. São necessários mais testes, é preciso mais tempo.

O que eu sei é que não são os políticos que podem tomar estas decisões, e muito menos os pais, ouvindo aqueles.

E também sei que Marcelo Rebelo de Sousa e a maioria dos responsáveis madeirenses que agora assim decidiram já não estarão cá para ver se alguma coisa vier de facto a correr mal com os jovens vacinados. Mas é pena. Porque caso haja um grande azar, deveriam poder ser julgados pelas decisões de hoje.

Jornalista

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