Os riscos agravam-se

A geração que assumiu a responsabilidade de se manter viva na gestão da causa pública na década de 80, não teve já lembrança essencial possível daquilo que foi a batalha ideológica mundial na guerra de 1939-45, nem suficiente conhecimento do desastre humano em que a guerra se traduziu. Não é suficiente salvar pela memória escrita que morreram 60 milhões de pessoas. Que as cidades foram intencionalmente destruídas para quebrar as vontades nacionais, os poderes maiores da sociedade civil não puderam enfrentar os desafios provocadores. Também não foi notícia que chegue para separar a imaginação dos novos responsáveis, a convicção de que tinha ocorrido a última das guerras, que nunca mais um povo seria subjugado por outro, que o engrandecimento territorial pela força chegara ao fim, que o direito presidiria à relação entre as potências, que a esperança e a liberdade seriam iguais para as nações grandes e pequenas. Analisando, na dúvida que tal é o caso, o certo é que essa experiência está a despedir-se dos comandos, e tudo indica a possibilidade de, mais uma vez, retomar vigência a regra do saber comum, segundo a qual, a experiência dos outros não aproveita a ninguém.

À medida que gradualmente se agravam as circunstâncias, a atual violação da paz assumiu a possibilidade de alargar o combate. A Ucrânia é a dramática prova de que a previsão do futuro pode agravar-se. A cuidar pelos discursos que todos os dias ouvimos, sem distinção de línguas, cada agente político deve ter na sua intervenção a compreensão da fórmula já famosa da evolução futura, que sempre foi dependente de alteração por adversários futuros, mas bastando reparar que a década passada documentou uma preocupação das potências líderes de cada organização militar no sentido de convencermos povos que não estava a decorrer entre eles um processo de novo estabelecimento de condomínio mundial.

O Holocausto, cujo risco está presente, pode ser determinado por qualquer das verdadeiras potências em risco de realizar o seu desígnio político, mas também por uma pequena potência, um desalinhado pequeno governante, um aventureiríssimo bem sucedido, que lança mão das alavancas de um arriscado poder funcional, e abusa disso. Nesta data, sem qualquer respeito pela legalidade internacional, o dever que deu forma à história, está a ser violado pelo comportamento da Rússia, que vai fazendo crescer a propaganda de uma capacidade de violar essa mesma história. Tínhamos recebido de Hegel o sentido da historicidade do género humano, aceitando que o tempo da evolução do homem não tem relação com o tempo de vida inorgânico. O resultado é que a situação da Ucrânia implica a completa violação da relação jurídica internacional, e dos mais elementares valores humanitários. Uma situação que visivelmente carrega o desenvolvimento de uma agressão mais geral, e como explicaria Wilhelm Dilthey, fica sempre presente a negação da experiência e o crescimento de coisas novas que têm, nesta data, uma relação de ignorância dos deveres da humanidade. Recentemente, o líder Putin, afirmando projetos pessoais, anunciou intervenções que enriquecem a dimensão do seu projeto, quando iniciou a conquista do que pretende ser parte do império histórico, que considera atingido por um desenvolvimento que afeta as convicções que proclamava quando iniciou a atitude de fiel da Terceira Roma, não omitindo a prática de observância do ritual da Igreja que apenas visava subordinar o seu, por então, escondido projeto.

As violações dos deveres do Direito Internacional demonstram que não presta qualquer atenção aos compromissos das potências, sem cuidar da sua dimensão efetiva. A crueldade das intervenções militares que tem provocado, pela referência ao projeto que adotou da Ucrânia, até agora, demonstram que repensar a violação dos projetos internacionais está fora das suas capacidades. Chega a surpreender que, já próximo da fronteira da União Europeia, digam que lhe parecia, no passado, desejável colaborar com a NATO. A verdade é que representa hoje na história, não apenas da Europa em evolução, o incumprimento das decisões legais em vigor, e também dos simples deveres humanos de todos os seres vivos. Não é de esquecer a convicção de que a Terra é a habitação de todos os homens, que partilham o direito à supremacia dos Direitos Humanos sobre os interesses. Não seria inútil se utilizasse o pensamento do projeto da UNESCO, provavelmente indispensável para quem fica a conhecer o valor de toda a Humanidade.

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