Até finais do século XVIII, quando a disponibilidade de terra arável e de mão-de-obra abundante para a trabalhar fazia a riqueza de uma nação, a China foi o país mais rico do mundo. Também contribuiu para esse sucesso que tivesse estabilidade, mas o último grande imperador foi Qianlong. Entretanto, na Europa acontecia a Revolução Industrial, e a China, em grande parte um império imóvel perante os novos tempos, acabou por empobrecer e ser semicolonizada. Europeus, americanos e japoneses a partir de certa altura começaram a comportar-se como senhores de parcelas do país, e nem a queda da dinastia Qing mudou o rumo das coisas.Aquilo que a República não conseguiu, que era refazer uma China estável, conseguiu até certo ponto a República Popular, fundada por Mao Tsé-tung em 1949. Mas a prosperidade só chegou com as reformas económicas lançadas por Deng Xiaoping no final da década de 1970. O antigo guerrilheiro, companheiro de Mao mas depois maltratado por este, percebeu que o socialismo não trazia riqueza e foi gradualmente introduzindo o capitalismo, mas sem que o Partido Comunista abdicasse do poder. As taxas de crescimento económico começaram a surpreender o mundo, até porque dois dígitos significam duplicação do PIB em sete anos e quadriplicação em 14 anos.A liderança chinesa, a par das reformas económicas, tomou outra importante decisão no final da década de 1970, impor uma política de filho único. Foi uma decisão duríssima, contra a tradição cultural chinesa, só possível porque o sistema não admitia contestação. Houve muitos problemas, estatísticas distorcidas, abortos seletivos que alteraram o equilíbrio natural entre bebés do sexo masculino e bebés do sexo feminino, frustração em inúmeras famílias. Mas o objetivo foi conseguido: ao contrário de outros países, em que boas taxas de crescimento económico eram engolidas pela explosão demográfica, a China conseguiu ficar mais rica, e a esmagadora maioria dos seus cidadãos também. Centenas de milhões saíram da pobreza, centenas de milhões tornaram-se classe média, e hoje, apesar da economia crescer na ordem dos 5%, o processo continua, e o país tem já o segundo maior PIB do mundo, só atrás dos Estados Unidos. A China, que falhou a Revolução Industrial de há dois séculos, é agora a fábrica do mundo, do têxtil barato aos carros elétricos de tecnologia ultramoderna.Mas aquilo que acontecia no século XVIII, na era de Qianlong, não vai acontecer no século XXI, no tempo do presidente Xi Jinping. Mesmo que o PIB chinês ultrapasse a médio prazo o americano, uma ultrapassagem muito adivinhada mas que tarda, o país mais rico do mundo não será igualmente o mais populoso. A China ainda tem mais de 1400 milhões de habitantes, mas foi ultrapassada pela Índia em 2023. E pior do que ser ultrapassada no número total, está a perder população. O que significa que vai perder competitividade, e enfrentar o desafio de com uma população ativa em queda ter de sustentar um crescente número de idosos.O problema foi antecipado pelo regime. E a política de filho único foi abandonada em finais de 2015. Mas os efeitos demográficos vão sentir-se durante várias gerações, e além disso os casais chineses, muitos deles filhos únicos, adaptaram-se à ideia de um só filho, os tais pequenos imperadores em que os pais investem tudo, da educação à roupa de marca.Soube-se agora do fim das isenções fiscais para os preservativos. Até pode ser uma medida pensada para inverter a quebra de natalidade, mas não terá o impacto desejado. É que as ordens governamentais são muito mais fáceis de fazer cumprir quando é para as famílias deixarem de ter filhos, do que para as obrigar a ter, como os sucessores de Deng já perceberam.O problema chinês é um problema global. Ou do Norte do planeta. Nesta matéria a China não faz certamente parte do Sul global. Está mais próxima do Ocidente. E do Japão e da Coreia do Sul. E da Rússia. Numa altura em que a China compete por ser uma superpotência, esta questão demográfica é uma enorme desvantagem em relação aos Estados Unidos, pois se as americanas também já não atingem os 2,1 filhos em média, mínimo para a substituição de gerações, a população ainda aumenta e a imigração é um recurso muito mais disponível até pelo facto de se falar inglês e ser um país muito diverso, mesmo que o discurso do presidente Donald Trump pareça ser o de fechar as portas. Diretor adjunto do Diário de Notícias