Os equilíbrios de poder na Europa pós-americana

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O alinhamento recente entre Friedrich Merz e Giorgia Meloni é mais do que um gesto diplomático. É um movimento que revela a reorganização silenciosa da política europeia em torno das duas maiores potências industriais da União. Alemanha e Itália, juntas, têm massa crítica para influenciar a agenda económica num momento em que o continente procura reencontrar competitividade e autonomia estratégica.

Os especialistas dividem-se em três leituras. A primeira é geopolítica: com os Estados Unidos a darem sinais de retração, a Europa prepara-se para um mundo em que terá de se sustentar a si própria. Nesse cenário, a Alemanha volta a surgir como potência inevitável, enquanto a Itália procura posicionar-se como parceira indispensável. A segunda é económica: Berlim e Roma enfrentam desafios semelhantes - energia cara, concorrência chinesa, perda de produtividade - e uma coordenação entre ambas pode redefinir a política industrial europeia. A terceira é política: Merz precisa de reconstruir pontes no sul; Meloni quer consolidar a sua imagem no centro-direita europeu. A aproximação serve os dois.

"Se esta convergência se consolidar, poderá marcar o início de uma nova fase: uma Europa menos dependente de Washington e mais moldada pelos interesses industriais do eixo Berlim-Roma."
"Se esta convergência se consolidar, poderá marcar o início de uma nova fase: uma Europa menos dependente de Washington e mais moldada pelos interesses industriais do eixo Berlim-Roma."Giuseppe Lami /EPA

Mas há uma quarta leitura, menos dita em público e mais discutida em Berlim: a aproximação à Itália funciona como contrapeso à França. O eixo Paris-Berlim já não é o que era. Macron tem sido mais assertivo na defesa, na política industrial e na relação com Washington, enquanto a Alemanha perdeu margem com a crise energética e o abrandamento económico. Ao trazer Roma para perto, Berlim diversifica alianças, reduz a dependência de Paris e cria um triângulo industrial que devolve equilíbrio ao tabuleiro europeu.

Se esta convergência se consolidar, poderá marcar o início de uma nova fase: uma Europa menos dependente de Washington e mais moldada pelos interesses industriais do eixo Berlim-Roma. A hegemonia alemã nunca desapareceu; apenas aguardava o momento certo para regressar. E esse momento pode estar a chegar.

Se os Estados Unidos reduzirem a sua presença militar na Europa, nos próximos anos, as potências europeias estarão novamente entregues a si mesmas e às suas velhas rivalidades. Será um teste ao projeto europeu."

O grande risco destas movimentações a que estamos a assistir diz respeito ao futuro da União Europeia se os Estados Unidos saírem de cena. A construção europeia - de crise em crise, como profetizou Jean Monnet - apenas foi possível devido a um acontecimento histórico que pôs cobro a 1500 anos de sangrentas rivalidades entre europeus. Esse acontecimento foi a Segunda Guerra Mundial e o seu desfecho, que levou à divisão do continente entre americanos e a soviéticos. Com os Estados Unidos a desempenharem, durante 80 anos, o papel de potência hegemónica, a França e a Alemanha puseram de lado os velhos ódios e uniram esforços para que a Europa pudesse ter um papel a desempenhar num mundo dominado por colossos geopolíticos. Ao mesmo tempo, a NATO continuava a sua proverbial missão de “manter os americanos dentro, os russos fora e os alemães em baixo”. Da Europa, esperava-se apenas que vivesse em paz e enriquecesse, contribuindo ao mesmo tempo para a prosperidade do seu protetor além-Atlântico. E assim tivemos aquele que foi o período mais longo de paz, na Europa Ocidental, desde o colapso do Império Romano.

Porém, as mudanças que Donald Trump está a fazer na política externa dos Estados Unidos estão a colocar tudo isto de pernas para o ar. Se os Estados Unidos reduzirem a sua presença militar na Europa nos próximos anos, as potências europeias estarão novamente entregues a si mesmas e às suas velhas rivalidades. O resultado não será, necessariamente, a guerra - evoluímos muito nas últimas décadas -, mas o projeto europeu enfrentará, com certeza, dificuldades acrescidas. O que dirão, por exemplo, os altos responsáveis do complexo industrial-militar francês - que está intimamente ligado ao poder político -, quando tiverem de lidar com uma Alemanha cada vez mais assertiva em questões de Defesa?

Diretor do Diário de Notícias

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