Opinião pessoal (XCVII) sobre paludismo ou malária

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Hoje, continuo com o tema sobre o paludismo, que tem, também, a denominação de malária. Este último nome deriva da língua italiana porque, antigamente, a doença era atribuída ao mal aria (mau ar) que existia nas zonas pantanosas. Curiosamente, pela mesma razão, a expressão de paludismo tem origem no latim: palus (pântano). Os ingleses referem-se à malária e os franceses ao paludismo para designarem a mesma doença. Nós utilizamos, indiferentemente, uma e outra expressão, visto que são sinónimas.

Como antes mencionei, são os mosquitos do género Anopheles (anofelinos) que transmitem os parasitas causadores do paludismo, através da picada das fêmeas, uma vez que se alimentam de sangue. Esses agentes são protozoários do género Plasmodium, que têm a particularidade de se reproduzirem no próprio mosquito (ao contrário, por exemplo, do vírus da febre de dengue que é apenas transportado).

Se bem que a forma típica seja devida à picada de anofelinos, uma transfusão de sangue pode transmitir os parasitas desde que o sangue transfundido contenha esses protozoários. A este propósito, na DGS, em 2004, vivi dias de grande inquietação quando recebi uma notificação da causa de um óbito que era atribuída a paludismo cerebral. Referia-se a uma cidadã (que tinha 60 anos de idade), residente em Leiria. A situação tinha que ser averiguada com rigor. Era imperioso perceber onde e como tinha adquirido paludismo. Chamei a mim mesmo essa investigação. Pelas entrevistas que conduzi junto dos familiares mais próximos fiquei com a certeza que a doente em causa nunca tinha saído do Continente, mas que, dias antes de morrer, fora submetida a uma intervenção cirúrgica que necessitara de transfusão de sangue. Logo depois, a meu pedido, a diretora clínica do hospital comunicou-me o lote do sangue transfundido e através do Instituto de Sangue verifiquei que o dador tinha sido um trabalhador guineense recém-regressado de Bissau. Foi assim que consegui localiza-lo e conversar com ele pelo telefone (os meus conhecimentos da língua crioulo ajudaram). Percebi, pelo relato que fez, que escondera a sua condição de ter estado febril no momento da doação...

Regresso à transmissão vetorial. Insisto que os mosquitos que vivem em Portugal, apesar de pertencerem ao género Anopheles, já não têm capacidade de transmitirem os parasitas do paludismo, tal como tinha acontecido na primeira metade do século passado. São da mesma espécie (Anopheles artroparvus), mas sem capacidade de transmitirem os agentes do paludismo (plamódios) que circulam nas regiões tropicais.

Então, como explicar este fenómeno?

(Continua)

Ex-diretor-geral da Saúde

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