Opinião pessoal (CV): sobre boa justiça

Publicado a

A história do cidadão português Jorge Santos, que antes, ele mesmo, tinha sido o americano George Edward Wright, e a seguir do guineense José Luís Jorge dos Santos, que aqui resumi em crónica anterior, é tão insólita como rigorosamente verdadeira. Poderia ter sido o argumento de um filme, que iria incluir a fusão de diferentes tipos de argumento: policial, aventura, luta por ideais, thriller e romance. Ainda por cima, com final feliz, tanto na dimensão do amor pela portuguesa com quem viria a casar-se como da Justiça.

Apesar destas minhas considerações não houve filme, até agora. A tentativa de produção não teve sucesso. Um desperdício para a arte cinematográfica e uma perda para os cinéfilos de todo o mundo. Teria sido uma oportunidade para o cinema retratar um exemplo da observação de Direitos Humanos próprios da Justiça de um país como Portugal em flagrante contraste com a natureza do regime conservador dos Estados Unidos da América.

Em 2011, o FBI descobriu-o através da localização de um telefonema que fez para a irmã, que residia nos EUA.

Curiosamente, muitos anos depois de Bissau, voltei a encontrar Jorge Santos, em Colares, onde vivia com a família. Sempre que nos víamos dizia-me que procurava clientes para pintar paredes. Fazia pinturas especiais com efeitos coloridos. Depois de 2011, já com o seu percurso de vida publicamente desvendado, disse-me que procurava produtores de cinema para reproduzirem as suas aventuras e audácias.

A esse propósito pretendo realçar a justeza das decisões tomadas, em Portugal, pelo Tribunal da Relação e pelo Supremo Tribunal de Justiça que, em 2011, não autorizaram a extradição de Jorge Santos para os Estados Unidos, como pretendia o FBI. A nossa Constituição assenta em pilares que refletem os valores principais do humanismo, como a limitação de prazo de prescrição de procedimentos criminais e a impossibilidade de extraditar cidadãos portugueses.

Ora, a evasão de Jorge Santos da cadeia onde, na América, cumpria pena, verificou-se em 1970 e a sua espetacular fuga pelo sequestro do avião da Delta Airlines ocorreu em 1972. Isto é, como passaram cerca de 40 anos o princípio da prescrição (e o da cidadania nacional) impôs-se para impedir o FBI de ter conseguido deter o foragido George Wright.

Ainda bem que assim aconteceu.

PS - À falta de uma produção de Hollywood, a jornalista Sofia Pinto Coelho realizou para a SIC uma excelente série documental intitulada George - o fugitivo que o FBI não esquece, que foi difundida em novembro de 2024, mas que pode e deve ser revisitada, facilmente, por pesquisa no Google. Três episódios imprescindíveis.

Ex-diretor-geral da Saúde

franciscogeorge@icloud.com

Diário de Notícias
www.dn.pt