Tal como aqui já escrevi, cheguei a Bissau em 1980. Era a época da esperança manifestada pela generalidade dos guineenses, traduzida pela confiança no futuro do país governado pelos comandantes da Luta, que tanto admiravam.Viver em Bissau era agradável, apesar das múltiplas complicações diárias. Os convívios entre dirigentes do Estado e cooperantes estrangeiros eram habituais. Invariavelmente alegres. Na comunidade portuguesa destacava-se a figura agregadora de António Manuel Reis, que organizava almoços de confraternização, especialmente aos fins de semana. Cada participante levava mantimentos para a casa do Tomané (o seu petit nom preferido), que eram partilhados. Nunca faltavam as ostras, que depois de lavadas eram preparadas na grelha e logo comidas com molho de limão e malagueta. Vinham em grandes sacas compradas em Quinhamel, a preços muito acessíveis. Uma categoria, insuperável, de entradas nas nossas festas!Ora, foi num almoço desses que conheci o Jorge Santos, um guineense que exibia uma imagem e atitudes distintas de outros conterrâneos, quer pela dificuldade que tinha em falar crioulo ou português quer pela fluência da língua inglesa, carregada com forte sotaque americano. Alto e magro, Jorge aparentava ser um desportista, ao estilo de jogador de basquetebol. Trabalhava nos serviços da Embaixada dos Estados Unidos em Bissau, no tempo do embaixador John Blacken. Na altura, eu julgava que Jorge poderia ser um agente da CIA, uma vez que ele circulava com total liberdade nos corredores e gabinetes dos diplomatas.Passados muitos anos, estava eu já na Direção-Geral da Saúde, em 2011, os noticiários das televisões relataram que o FBI tinha localizado, em Colares, um dos mais procurados fugitivos americanos e que agentes tinham viajado para Portugal para requererem a sua detenção, a fim de ser repatriado para os EUA. Com enorme espanto, identifiquei pelas imagens que o tal foragido era Jorge Santos, o nosso companheiro de festas no jardim do Tomané.George Wright era há 40 anos perseguido pela polícia americana. Tido como membro do Black Panther Party, era acusado de evasão da cadeia onde estava preso e de ter assaltado um avião. Estava no top dos mais procurados do FBI. Conseguiu refúgio na Argélia.Em Argel, conheceu dirigentes do PAIGC que ofereceram a cidadania guineense (Certidão de Nascimento, com novo nome). Mais tarde, adquiriu a nacionalidade portuguesa. Vivia tranquilamente com a família em Colares. PS: Grande classe do Jorge, que, apesar de fugitivo, teve a ousadia de trabalhar na embaixada americana. Só possível em Bissau!(Continua) Ex-diretor-geral da Saúdefranciscogeorge@icloud.com