Como tenho escrito, a vida em Bissau era muitíssimo animada, nos anos 80. Entusiasmante. Ali vivi episódios invulgares (alguns dos quais quase inacreditáveis) que, à semelhança da crise anual da praga de grilos, nunca mais esqueci pela singularidade indiscutível que representaram.O clima quente e húmido é particularmente agradável, visto que em todos os meses do ano, de dia ou de noite, o traje habitual dispensava casaco, incluindo em encontros formais nos gabinetes governamentais ou nas chancelarias diplomáticas. As camisas tropicais de estilo balalaika, quer de mangas curtas (para o dia a dia), quer compridas (reservadas ao mais rigoroso protocolo de Estado) eram muito agradáveis. Os seus quatro bolsos e os colarinhos abertos elevavam o conforto.Ora, um determinado dia, eu tinha recebido um convite para assistir a uma conferência de Mário Soares, que estava em visita oficial a Bissau a convite de Nino Vieira. A agenda previa um discurso do Presidente português sobre cooperação Norte-Sul.Como de costume, fiz contas para chegar ao local ligeiramente antes da hora marcada. Por isso, parei o meu automóvel nas redondezas à espera do tempo exato para chegar à hora, sem atrasos nem avanços.Então, reparei que o diretor-geral do instituto que acolhia o evento estava embaraçado porque o seu carro não pegava, devido à humidade ambiental ter desgastado a bateria. Era preciso pegar de empurrão para libertar o espaço destinado às comitivas dos presidentes. Percebi a sua imensa aflição. Ninguém estava por perto para empurrar (pintchar, em crioulo) o seu carro empanado. Ao ver a cena, decidi que tinha de ser eu a aparecer como voluntário. Assim calhou. Então, disse-lhe:- Olhe, entre já para o automóvel, porque eu empurro por trás!Reconheceu-me e respondeu:- Ó doutor, aceito. Vamos a isso.Pouco tempo depois o motor estava a trabalhar. Antes da despedida e dos agradecimentos, vira-se para mim e disse-me:- Ó doutor, realmente nós, guineenses, andámos sempre a pintchar os carros dos brancos. Agora foi ao contrário. Só você teria tido esta cortesia de branco empurrar carro de preto!Pouco minutos depois, com o parque desimpedido, chegaram os batedores dos dois presidentes.Certamente que o meu traje balalaika terá ajudado a minha ação: apesar do calor o esforço não se refletiu no vestuário.À noite, em casa, contei à família o sucedido, pormenorizadamente. Entre a estupefação e muitos risos recebi os aplausos de todos. Aprovaram sem reservas. Foi uma lição para meus filhos. Uma demonstração concreta de educação e civismo que sempre deve prevalecer em relações humanas.(Continua) Ex-diretor-geral da Saúdefranciscogeorge@icloud.com