Tal como antes escrevi, a vida em Bissau era um misto de dificuldades e de prazeres, nos anos 80. Na época, todos se tratavam por camarada. A nível das relações humanas, o país tentou implementar os valores da fraternidade e da igualdade, reclamados pelo PAIGC desde o início da Luta e mantidos a seguir à Independência. No plano político teria sido um modelo baseado no exemplo da sociedade cubana, mas que viria a esfumar-se ao fim de poucos anos.Na altura, os fenómenos bizarros eram frequentes, tanto no domínio ambiental, como nas relações sociais. Múltiplos acontecimentos estranhos apimentavam a vida coletiva rotineira, particularmente na capital.Era o caso do aparecimento repentino, de um dia para o outro, de milhões de grilos que rapidamente se disseminavam por toda a cidade, incluindo no interior das casas. Os típicos cri-cri-cri perturbavam as noites quentes. Um cooperante português, professor liceal de biologia, explicou-nos que aqueles cantares típicos dos grilos eram os machos a chamarem e a seduzirem as fêmeas para fins de acasalamento. Ora, se os cri-cri-cri seduziam as fêmeas dos grilos, para nós constituíam um verdadeiro inferno. A vida noturna era terrível. Ao jantar saltavam para os pratos, à noite estavam no quarto debaixo da cama e até dentro dos lençóis. Grilos por todo o lado e a toda a hora. Muitos. Cenas indescritíveis. Depois do pôr do sol, procuravam os arruamentos com mais candeeiros públicos e especialmente o Palácio Presidencial, uma vez que era o edifício mais iluminado. Pendurados nas paredes com mais luz, transformavam a cor rosa da fachada em enormes manchas negras. Na manhã seguinte, os grilos mortos que enchiam os pavimentos alcatroados das ruas eram espalmados pelos pneus dos carros, originando sucessivos estalidos.Passados poucos dias, o diretor-geral da Saúde, dr Venâncio Furtado, dava ordem para pulverizar a cidade com um inseticida que era lançado nas vias urbanas durante a madrugada. Provavelmente, esta operação tinha efeitos negativos a nível ambiental, mas como encurtava a presença de tantos grilos nas nossas casas representava um remédio bem-vindo.Nos anos 80, a praga dos grilos em Bissau era recorrente, tido como fenómeno cíclico, desde o tempo colonial.PS: Em Campo de Ourique, quando era criança lembro-me de ir à florista Leonor, na Ferreira Borges, pela mão de minha Mãe, para comprar uma pequena gaiola com a forma de um cubo com grades de arame para prender um grilo. Uma vez regressados a casa o grilo era alimentado com folhas de alface. Ao ouvirmos os cri-cri-cri, era uma alegria para nós.Conclusão: nem 8 nem 80.(Continua) Ex-diretor-geral da Saúdefranciscogeorge@icloud.com