Sinais de barbárie

Aquilo que designamos por civilização define-se sempre por mediações e distâncias. Comemos com talheres, em vez de mergulharmos as mãos na comida. Construímos laços eróticos e de afeto, em vez de uma mecânica e imediata satisfação da pulsão sexual. Na civilização criamos distância entre os desejos e a sua satisfação. Sabemos que não somos iguais às coisas de que necessitamos e, sobretudo, respeitamos o espaço de diferença e liberdade que deve existir entre seres humanos. Só na civilização pode existir a diferenciação crítica entre o sujeito e a sua ação, que é típica da consciência moral e do zelo jurídico. Só aí nasce o sentimento da culpa, mas também a ideia de que a vida pode ser um projeto, uma obra em construção. Na barbárie, pelo contrário, todas as mediações se perdem e todas as distâncias se suprimem. Um político, que representava o interesse geral dos europeus, passa à reserva, e empresta, cumprindo embora o período de nojo obrigatório, o seu capital de conhecimento aos interesses privados mais controversos. Um juiz, inflamado pela vaidade do eu, a que Pascal chamava odiosa, rasga a regra e o decoro, deixando-se arrastar para um pugilato na lama com um arguido num processo de que é responsável. Um jornalista vaza em livro as alegadas confidências sobre a intimidade de personalidades políticas, que lhe terão sido confiadas sob reserva. Na barbárie, a gratificação serve-se sem delongas e com fúria. O que conta é o resultado e não o método. Vale tudo, desde que se alcance a meta. Por cima das reservas, das leis e dos outros. Será isto uma sucessão de meros casos isolados, ou uma tendência? Haverá motivo para preocupação? Quem já viu o horror de um campo de batalha, com a amálgama de inimigos abraçados na agonia, sabe a estação final para onde nos pode conduzir o derrube das distâncias, inerente à ascensão da barbárie.

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