Ritos de servidão

A recente proposta do ministro da Ciência e Ensino Superior, Manuel Heitor, de envolver as instituições apoiadas pela FCT no acolhimento dos novos estudantes universitários, constitui mais uma etapa na sua luta, louvável e persistente, contra as praxes. Trata-se de não dar tréguas ao achincalhar da ideia de Escola iluminista, organizada em torno dos valores da autonomia individual e da cidadania democrática, perpetrado pelas praxes. Face a estas, o registo corrente de quase todos os diferentes atores da vida académica (docentes, discentes, pais e variadíssimas associações) é o de uma condenação declaratória, mas sem consequências. Como quem rejeita um mau odor, depressa dele se afastando. Parece-me um erro grave, pois as atuais praxes não constituem uma regressão às práticas "académicas" do Antigo Regime, não reproduzem os ritos de casta de uma sociedade estratificada em ordens e estamentos. As praxes de hoje preparam um futuro de "servidão voluntária". Elas estão em linha direta com a degradação do ambiente cultural e psicológico de muitas escolas secundárias, transformadas em lugares ruidosos, onde a "indisciplina" é um nome pobre para designar a lenta erosão das condições de possibilidade para um ensino que não seja uma tóxica caricatura. De Verney a Sérgio, constituiu-se um projeto de Escola como preparação para a Cidade. Para cada um aprender e defender os seus direitos e deveres, pois não existe cidadania sem o respeito pelo espaço de proteção e dignidade que deve existir entre cada ser humano e o seu semelhante. As praxes dobram as almas para um futuro de abuso, prepotência, ódio à inteligência, amálgama violenta de identidades temerosas. Não são um recuo. São uma antecipação dos novos tribalismos para onde, distraidamente, nos estamos a deixar empurrar.

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