Perdidos no labirinto

O próximo Conselho Europeu, que se inicia amanhã, promete aumentar a febril oscilação entre o fantasma do tribalismo nacionalista e o delírio otimista em que a UE se vai dilacerando há anos. De um lado vamos ter a fação absentista e truculenta de Visegrado, um grupo de países cada vez maior que já percebeu que na UE os direitos humanos podem ser violados sem sanção. E, do outro, os profetas da bonança, na linha do presidente do Eurogrupo, classificando a conclusão do resgate da Grécia como o fim "dos últimos resquícios da crise do euro"... O novo Graal do eixo franco-alemão é a Declaração de Meseberg, datada de 19 de junho, estabelecendo um consenso entre Paris e Berlim. Os que preferem a lucidez ao entusiasmo recordarão que Merkel demorou nove meses a responder - em letra de forma e sem intermediários - ao solene e dramático apelo para a reforma da zona euro e da UE lançado por Macron num discurso de setembro de 2017, logo após as eleições alemãs. Muito embora uma parte de mim esteja ansiosa por boas notícias, a outra parte obriga-me à prudência e juízo crítico. Depois da leitura atenta do documento, não há muito para aplaudir. O aspeto geral do texto revela desarrumação e um enorme grau de indefinição. Os muitos temas aludidos estão subordinados a nove tópicos centrais, elencados sem hierarquia ou prioridade, como fazemos ao sair de casa e nos lembramos, apressadamente, de escrever uma lista de compras. As aparentes cedências de Merkel a Macron - um orçamento para a zona euro, por exemplo - aparecem de modo ainda muito confuso. Muitas das medidas são despachadas para grupos de trabalho e agendadas para datas distantes: 2021, 2024. Algumas ideias infelizes aparecem repetidas, como a de voltar a falar na dupla cedência de crédito de emergência a países em dificuldades, tanto pelo Mecanismo Europeu de Estabilidade (que vai ser reformado e até mudar de nome) como pelo FMI. Não existe urgência real, apenas pressa em simular a sua existência. Contudo, os estudos de terreno vão chegando com resultados preocupantes. As regras do euro são incapazes de travar a clivagem crescente entre o norte e o sul, sendo cegas para o problema do desemprego jovem, que é crítico na Europa Meridional. A união bancária - que continua a "esquecer" deliberadamente o prometido sistema europeu de garantia dos depósitos (EDIS) - tem favorecido a concentração das instituições, usando critérios que distribuem os danos e os benefícios pelos países do costume, agravando as assimetrias que deveriam ajudar a corrigir. A falta crónica de investimento público alemão nas últimas duas décadas afeta toda a economia europeia.

Infelizmente, o que ainda vai mantendo a coesão europeia é apenas a física monetária e não uma deliberação política racional e mobilizadora. É o medo dos cidadãos, das empresas e dos governos de serem fulminados pelos mercados, fora do euro. O euro funciona hoje como um sistema automático e negativo de dissuasão, analogamente ao equilíbrio de alianças que impôs uma armada paz eterna na Europa, até colapsar em 4 de agosto de 1914. O eixo franco-alemão nunca foi mais do que uma promessa no longo processo da sempre adiada unidade europeia. Hoje, contudo, tornou-se cada vez mais uma ilusão. Uma chanceler que é impotente para impedir que a Baviera, estado federado em longa rebeldia, se junte ao sombrio clube de Visegrado não está em condições de assegurar sequer a completude do seu mandato, quanto mais uma profunda reforma europeia que só parece excitar o jovem Macron.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.