O passado nunca acaba

No dia 3 de janeiro de 2014, na pequena cidade de Euskirchen no estado alemão da Renânia do Norte-Vestfália, um grupo de 14 trabalhadores da construção civil ao mover uma placa de betão foi atingido por uma violenta explosão causada pelo rebentamento de uma oculta mina aérea de 1,8 toneladas, lançada por um bombardeiro da RAF durante a II Guerra Mundial. O condutor da escavadora, de 50 anos, morreu no local, dois outros, de 23 e 46 anos, ficaram hospitalizados com ferimentos graves. Dois meses depois, em Ypres, na Bélgica, numa região que foi o palco de quatro ferozes batalhas durante a I Guerra Mundial, dois trabalhadores pereceram devido à explosão de uma munição de artilharia, adormecida no solo há quase cem anos. Só na região de Ypres, desde 1918 até hoje, já morreram cerca de 360 pessoas e 500 ficaram feridas em virtude dos milhões de explosivos largados nesse campo de batalha rural, milhares deles aguardando ainda o momento da sua detonação. É aquilo que os belgas designam como a "colheita de aço"... O manobrador de Euskirchen nasceu em 1963. Os pilotos ingleses que transportaram a fatídica mina que trazia o seu nome já devem ter falecido, Teriam idade para serem seus avós. Os operários belgas de Ypres foram mortos em março de 2014 por projéteis lançados por artilheiros nascidos nas últimas décadas do século XIX. Os astrónomos lidam facilmente com a conceção de que a sequência temporal passado-presente-futuro é uma ilusão psicológica útil. Trata-se, como escreveu Kant, de uma "intuição transcendental" de tempo que nos permite habitar a complexidade do mundo, sem endoidecermos com a saturação de informação que gira à nossa volta e dentro de nós. Mas quem confunda a perspetiva da nossa sensibilidade com o conhecimento e a explicação do mundo real está condenado ao erro e à superstição. Ainda hoje se "escutam" as ondas gravitacionais dos primeiros momentos da grande expansão cósmica universal do big-bang. A energia expansiva que fez nascer a matéria da nossa física, há muitos milhares de milhões de anos, continua a moldar a nossa misteriosa marcha no espaço-tempo. Do mesmo modo, a ambição de Guilherme II, a loucura de Hitler, a miopia dos vencedores na Versalhes de 1919, ou a cupidez de Wall Street, em 1929, continuam a vibrar no nosso presente, ao ponto de ainda matarem gente de carne e osso.

Na semana passada, a propósito do novo governo italiano, o aparentemente vitalício comissário europeu Günther Oettinger - uma truculenta versão do queirosiano conselheiro Acácio - veio afirmar que em breve os eleitores italianos iriam receber uma lição dos mercados financeiros para não votarem em partidos populistas. Oettinger é suficientemente insignificante, com uma carreira onde se acumulam disparates e ligações suspeitas, para ter levado de imediato e sem réplica um puxão de orelhas de Juncker. Todavia, ao contrário das suas afirmações, a eurozona só poderá sobreviver se for corrigida na raiz a errada decisão fundamental tomada no tratado de Maastricht (1992), agravada com o tratado orçamental (2013), de transformar os mercados nos cães de guarda de uma união monetária promotora de assimetrias insustentáveis. Oettinger, mergulhado na fantasia do presente, acredita em países--santuário no caso de implosão do euro. Pelo contrário, tudo indica que nada nem ninguém na União Europeia escaparia incólume aos estilhaços das bombas-relógio de 1992 e 2013. A data e as circunstâncias dessa explosão continuam incertas, mas o perigoso tiquetaque da sua contagem decrescente faz manchetes em quase todos os dias.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.