O direito ao reconhecimento

Ao meditar no que tem sido a presidência de Trump, recordei-me de um episódio relacionado com o assassínio de Abraham Lincoln, em 14 de abril de 1865, às mãos do terrorista de ocasião, John W. Booth. Na manhã do dia seguinte, quando a capital dos EUA estava mergulhada num imenso estado de choque, começou a juntar-se uma multidão de milhares de pessoas em frente da Casa Branca. Ela era esmagadoramente formada por negros e estava dominada por uma tristeza e um desamparo contagiantes. Poucos dias antes do atentado, as tropas da Confederação, lideradas por Robert E. Lee, capitulavam em Appotomax. Sabemos que Lincoln, reeleito em novembro de 1864, ainda em plena Guerra Civil, recebeu a vitória com a serenidade e o peso da responsabilidade, sempre espelhados no seu rosto. Em quatro anos tinham morrido 620 000 jovens norte-americanos, numa guerra onde a crueldade humana foi amplificada pela brutalidade tecnológica. Nesses dias vivia-se uma atmosfera inebriante e dolorosa de recomeço. Há um magnífico discurso de Walt Whitman, proferido em Nova Iorque, no 14.º aniversário desse assassínio, que nos transporta com a sua poética solenidade para a atmosfera do tempo. Lincoln pretendia refundar os EUA num aprofundamento das suas raízes e princípios contidos na Declaração de Independência, na linha do seu famoso discurso de 1863, em Gettysburg. A questão da integração dos quatro milhões de escravos negros na sociedade americana - que tinha sido colocada sempre em segundo lugar atrás da necessidade de preservar a União - aparecia agora como a tarefa principal. Importa recordar que o 13.º Aditamento à Constituição federal, consagrando a abolição da escravatura, ainda estava em processo de ratificação. Contudo, Lincoln, num discurso proferido a 11 de abril - estando o seu futuro assassino na assistência - havia defendido claramente a necessidade de outorgar plena cidadania e direito de voto aos antigos escravos, algo que só com os 14.º e 15.º Aditamentos, respetivamente em 1868 e 1870, chegaria ao texto constitucional. A tristeza e até o desespero dos negros, chorando a morte de Lincoln, faziam todo o sentido. As suas lágrimas antecipavam um século terrível para os direitos humanos na história dos EUA. O sonho de Lincoln, embora estivesse na letra da lei fundamental, foi impedido de chegar à realidade devido à reconciliação, moralmente negligente, da maioria branca do Sul e do Norte. A breve e incompleta Reconstrução permitiu que os brancos do Sul voltassem à sua ideologia ferozmente racista e criassem leis de Segregação nos antigos Estados da Confederação. O apartheid não nasceu na África do Sul, em 1948, mas nos EUA em 1896, com o horrendo acórdão "Separados mas Iguais", do Supremo Tribunal, que traiu a Constituição que seria seu dever defender. O sangue teria de voltar a correr nos anos 50 e 60 do século passado, com JFK, Luther King, Robert Kennedy, e muitos outros, para que o projeto de Lincoln pudesse reerguer-se até ao simbolismo da vitória de Barack Obama. Trump não se limita a hostilizar o mundo, está também a reabrir as feridas mais dolorosas e sagradas da história de um país, que parece olhar a partir do chão. Os negros, os hispânicos, as mulheres, os cidadãos LGBT, que ele persegue e despreza, não querem ficar acantonados no arame farpado do seu populismo, que cada vez se parece mais com uma versão digital do fascismo. O axioma dos EUA na sua Declaração fundadora, que Trump rasgou, é o direito de cada um poder ser tratado pelo nome próprio. Igual como cidadão e respeitado na sua singularidade como pessoa.

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