Uma das coisas que mais aprecio no Brasil é perceber como esse extraordinário país, que deixa os portugueses desarmados perante a sua complexa grandeza, é também um enigma para as melhores mentes brasileiras. Se tivesse espaço para tal poderia elencar aqui uma trintena de grandes vultos da cultura do país-irmão que estudaram os mistérios da essência e existência brasileiras. Irei apenas falar de um grande autor que ajuda a iluminar este sombrio período de crise política, económica e moral em que o Brasil mergulhou. Refiro-me ao notável ensaio publicado com apenas 34 anos de idade pelo então jornalista Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil (1936). Beneficiando de uma importante estada em Berlim (1929-1931), como correspondente dos Diários Associados, Holanda vai combinar de um modo único na sua vasta obra, a observação atenta do repórter, com a erudição ágil da melhor sociologia germânica, sem esquecer a marca do pensamento nacional, em especial a obra maior de Gilberto Freyre, Casa Grande & Senzala (1933). Indo buscar a Ferdinand Tönnies a diferença entre "comunidade" e "sociedade", a Max Weber o conceito, a um tempo heurístico e hermenêutico de "tipo-ideal", e a Freyre as especificidades da colonização portuguesa (diferente da espanhola e, ainda mais, da inglesa), Holanda vai transformar o conceito de "homem cordial", cunhado pelo poeta paulista Ribeiro Couto, numa chave interpretativa para compreender a cultura brasileira, também no campo político. O "homem cordial" representa o modo fortemente emocional, ligado ao coração (cordis, em latim), da psique brasileira. Uma cordialidade que desliza para uma intimidade, avessa à polidez formal, refletindo um país forjado em comunidades rurais, de base patriarcal, e fortemente autónomas, como o eram os engenhos. O principal risco político reside na manipulação da esfera pública e estadual pela intrusão da esfera privada e familiar..Analisando a turbulenta ascensão de Temer, sempre escudado contra o poder judicial em alianças de puro interesse forjadas no Congresso, é impossível não recordar as palavras de Holanda: a escolha para cargos públicos era (é) feita mais na base da "confiança pessoal" dos candidatos do que "nas suas capacidades próprias." Num Brasil tão ferido pela violência física e a insegurança da desigualdade económica, é tempo de a cordialidade dar mais espaço ao rigor nas políticas públicas, se quisermos que, como escreveu o Padre António Vieira, a justiça e a paz, finalmente, se possam abraçar.