Democracia manchada de crude

A democracia representativa não vai bem. É imperativo reformá--la, pois continuamos sem alternativas melhores. Contudo, aqueles que gritam contra o flagelo do populismo limitam-se a atacar a febre em vez de combater a infeção que a provoca. Na última semana, a nacionalização mediática da autofagia de um grande clube de futebol quase que deixou na sombra um caso em que se combinam dois dos problemas que ameaçam as democracias: a) a captura do Estado por grupos económico-financeiros; b) a "maldição" dos recursos naturais. O primeiro problema foi objeto recente de obras importantes que mostram como até nas mais antigas e consolidadas democracias do mundo, como os EUA e o Reino Unido, o processo legislativo e a decisão política foram contaminados por formas, mais ou menos grosseiras, de intrusão de poderosos interesses particulares, que incluem na sua ação de influência sobre os agentes públicos instrumentos que vão da corrupção nua e crua ao financiamento de campanhas eleitorais, além da perigosa oferta de relatórios "técnicos" com informação manipulada visando a produção de leis protetoras dos seus interesses setoriais. Sobre este tema recomendo dois títulos, já deste ano: A Democracia Bilionária. O Rapto do Sistema Político Americano, de George R. Tyler (BenBella Books), e o Capitalismo Falhado, de David Coates (Agenda Publishing). O segundo problema que causa erosão, sobretudo nas democracias dos países em desenvolvimento, é definido por Jeffrey D. Sachs e outros autores como a "maldição" dos recursos naturais. Ele revela a tragédia dos países ricos em recursos naturais, sobretudo em combustíveis fósseis, onde venais elites rentistas indígenas se aliam ao capital estrangeiro para explorações que são executadas com enorme violência sobre as populações (por exemplo, a Nigéria) e onde a riqueza efémera não apaga nem a pobreza nem fortalece as instituições (o drama da Venezuela é disso uma brutal ilustração).

O governo renovou uma autorização de prospeção de hidrocarbonetos, concedida à ENI e à GALP, sem exigir a avaliação de impacte ambiental que o espírito da lei e os resultados da consulta pública recomendariam. O furo está programado para setembro, nos fundos marinhos, a 46 quilómetros do litoral de Aljezur, e tem sido objeto, nalguma imprensa, de uma maliciosa campanha de fake news, onde se citam estudos imaginários sobre lucros fabulosos. Contra ele existe um movimento plural, envolvendo milhares de cidadãos, académicos, ONG, empresários do turismo e da pesca, e todos os municípios do Algarve e do Sudoeste Alentejano. O ministro do Ambiente, abdicando da sua missão para servir de testa-de-ferro do governo, invoca a "estabilidade contratual" como motivo deste tratamento preferencial. Sabendo que esse contrato de 2007 tem as pouco auspiciosas assinaturas de José Sócrates e Manuel Pinho, seria mais prudente invocar o primado do artigo 66.º da Constituição: direito ao ambiente e à qualidade de vida! O populismo só é uma ameaça para as democracias que entre dois escrutínios têm governos que se comportam como conselhos de administração, em que o princípio da igualdade eleitoral dos cidadãos é substituído pelo princípio do voto desigual dos acionistas. O caso do furo de Aljezur, nas suas pinceladas grotescas, revela que a geringonça parece ter entrado naquela fase entrópica em que os governantes descuram até o decoro mínimo de manter o verniz da virtude republicana. Em breve saberemos se a prospeção que o executivo autorizou nas profundidades marinhas do Sudoeste não irá fazer estremecer o Palacete de São Bento.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.