Como os EUA vão sempre à frente, não deve causar admiração a ninguém que seja desse país que nos chegam os sinais pioneiros de uma tendência cada vez mais forte: a infantilização universal. Ela pode ser definida como ausência, parcial ou total, de pensamento crítico. No limite, trata-se de não perceber a diferença entre realidade e ficção. Os eleitores norte-americanos, por exemplo, escolheram como presidente uma personagem de um filme de série B. Nesse aspeto, a Europa com os seus grotescos chefes populistas ainda corre o risco de passar à frente dos EUA, como nos anos 30 do século passado! Como se alimenta o processo de infantilização generalizada da sociedade em que todos estamos a participar? Na minha perspetiva, trata-se da combinação de três ingredientes: capital, marketing e manipulação da ciência. Capital: a vanguarda dos negócios está hoje na comunicação e na informação. Somos uma espécie de duplos digitais, vivendo dentro de bolhas de informação (não confundir com conhecimento...), numa entretecida arquitetura tecnológica devorando e gerando colossais fluxos de capital. Marketing: é a linguagem dominante nas redes. A comunicação é sempre persuasiva. Quando se quer levar alguém a comprar alguma coisa não se aponta à racionalidade, mas às fibras mais profundas do cérebro, à mente onírica, onde habitam os nossos desejos e emoções mais prístinas e invencíveis. Ciência: no passado, quando queríamos dar credibilidade a um conteúdo, invocávamos a autoridade divina através de teólogos conceituados, agora manipula-se a ciência. No século XVIII, a ciência era a principal inimiga da superstição. Hoje, manipulada, a ciência tornou-se a sua principal promotora..Um exemplo recente. Elon Musk enviou para o espaço, visando Marte, o seu novo modelo de automóvel. Conduzido por um boneco, batizado de Starman. Tratou-se de um dos golpes publicitários mais caros e poluentes da história. Contudo, como um bombardeiro escoltado por caças protetores, a patética iniciativa do jovem bilionário foi acompanhada por uma constelação épica de narrativas: escreveu-se sobre a brevíssima chegada do homem a Marte, sobre o futuro êxodo em direção aos exoplanetas, que se descobrem todos os dias, sobre o entusiasmo de Silicon Valley com a nova indústria que promete prolongar indefinidamente a vida dos supericos... Somos tratados como crianças por quem, na verdade, nos considera imbecis. Eu assisti em julho de 1969 à alunagem tripulada da Apollo 11. O programa Apollo, que durou entre 1961 e 1972, só foi possível por ter atrás de si todo o poderio de uma América que, então, era grande a sério. Marte é um alvo qualitativamente diferente. O capital hoje disponível para lá chegar é escassíssimo, tendo em conta os imensos problemas técnicos que existem para resolver. Só tolos ou charlatães podem prometer para breve uma pegada humana em Marte! A lei de Moore (que descreve o crescimento exponencial da indústria do hardware) não se aplica aos sistemas físicos da energia e da navegação espacial, que têm tetos de complexidade muito mais rígidos. Não é por acaso que a última pegada na Lua foi deixada há mais de 45 anos. Aqueles que nos apontam o dedo para as estrelas apenas nos distraem do megaescândalo ético contemporâneo: sabemos que a nossa civilização está a devastar o único planeta que nos pode garantir futuro, e continuamos mergulhados em desculpas ignóbeis para não mudar de caminho. Habitantes de uma cultura autofágica, não admira que, numa deriva infantil, prefiramos a superstição mole à dureza da realidade.