Para além dos sinais de fadiga e desacerto do primeiro-ministro, o governo Costa sofre de um problema matricial que, dois anos depois, se agravou ainda mais. Depende de forças externas e internas que não controla, umas e outras em rota de colisão. Na zona euro, o governo tem de navegar com um leme amarrado ao colete-de-forças do Tratado Orçamental (TO), onde cada sucesso anuncia uma provação maior no ano seguinte. A saída do défice excessivo exigirá ainda maior redução da despesa visando o magro défice estrutural, para depois o país se lançar na terra incógnita de fazer baixar a sua dívida pública excessiva de 130% do PIB até ao limite máximo autorizado de 60%. Seguindo a letra do TO, Portugal teria de reduzir o volume da sua dívida pública durante 20 anos, de início a um ritmo anual superior a 3% do PIB... Há argumentos cinematográficos do tipo Missão Impossível mais realistas do que essa exigência da atual ordem do euro! Por isso, qualquer governo português sério terá de encarar as atuais regras do jogo como um doloroso meio para um fim maior, que é o da reforma profunda da união monetária no sentido de um federalismo robusto, com suporte fiscal e orçamental. Para isso seria decisivo um claro acordo entre países europeus que partilham o mesmo objetivo, assim como uma renovada convergência franco-alemã, suscitada pelas propostas do presidente Macron, que iniciasse o caminho da reforma do euro. Apesar de esta perspetiva se encontrar ainda travada pela vaga de populismo, desintegração e paralisia política que assola as capitais europeias, a verdade é que o governo Costa teve um razoável sucesso nestes dois últimos anos na difícil frente europeia. Soube aproveitar a política de financiamento monetário com que Mario Draghi tem procurado colmatar a inépcia orçamental dos governos nacionais. Os credores internacionais voltarem a investir no país, e o serviço da dívida tem vindo a baixar. Contudo, bastaria uma ligeira alteração na estratégia do BCE para que as nossas fragilidades voltassem a ser expostas. E é aqui que a dependência interna de Costa do apoio parlamentar do PCP e do BE se revela como um fator que pode, no próximo biénio, revelar-se insustentável. Com efeito, ao apoiar-se em dois partidos sem uma verdadeira agenda europeia - que não seja a do protesto retórico, ou mesmo de uma espécie de objeção de consciência ao euro, como é o caso do PCP -, Costa não poderá contar com esses dois partidos para uma longa e dura campanha pela reforma das instituições europeias. A aliança poderia funcionar numa breve e vitoriosa "guerra-relâmpago", mas é muito problemática num horizonte cada vez mais provável de uma longa e incerta "guerra de atrito". O OE para 2019, mesmo com um nível de crescimento acima de 2%, será cada vez menos elástico para acomodar o aumento dos rendimentos do trabalho com a austeridade perpétua do TO. Contudo, a eventual rutura do apoio parlamentar à esquerda não significaria necessariamente a inevitabilidade de eleições antecipadas. Uma forte probabilidade para o OE de 2019 será a de o PS poder contar com o apoio do novo líder do PSD. Seja para Rio seja para Santana, viabilizar um OE restritivo, em nome das exigências europeias, pode tornar-se um gesto indispensável para romper com o modelo de oposição "terra queimada" de Passos Coelho, mostrando sentido de responsabilidade perante o eleitorado. No próximo biénio, com o aumento da trepidação à esquerda e à direita, será ainda mais difícil ao governo acertar no buraco da agulha.