Quando tomou posse da presidência dos EUA, em março de 1861, Lincoln encontrou um país completamente diferente daquele que o elegera em novembro de 1860. Dos 34 Estados da União, 11 haviam rompido ilegalmente com Washington (a Constituição federal não prevê a saída unilateral de qualquer Estado), formando uma confederação, com capital em Richmond (Virgínia). Mantendo embora uma firme recusa da secessão, Lincoln teve a sabedoria de manter a discordância numa base argumentativa, apelando ao regresso dos Estados rebeldes. Foram estes que, ao atacar o Forte Sumter, em 12 de abril de 1861, passaram da política para a guerra. O que está a acontecer na Catalunha é algo que nos obriga a ser intelectualmente humildes. Embora a mediocridade de quem nos governa na Europa seja um traço cada vez mais comum, nunca pensei que um punhado de chefes de partido em Madrid e Barcelona submetessem a Espanha à suprema humilhação mundial da violência policial exercida sobre cidadãos comuns que pretendiam participar num referendo. É verdade que o referendo foi convocado num quadro de duvidosa legalidade. É verdade que figuras cimeiras do governo catalão como Artur Mas e Carles Puigdemont têm assumido um discurso cada vez mais inflamado, substituindo análise racional por ideologia nacionalista. Contudo, foi Mariano Rajoy - ao contrário de Lincoln - quem impediu o diálogo, preferindo tomar à força o Forte Sumter dos catalães rebeldes. Em vez de deixar realizar pacificamente o referendo, que estava a ser motivo de grande controvérsia na própria sociedade catalã, Madrid resolveu escalar das palavras para a violência, lançando as forças policiais do Estado numa missão ignóbil e impossível. As imagens brutais de domingo passado, contrastando com as declarações insensatas de Madrid sobre a natureza "proporcionada" do uso da força, revelam os danos que a estupidez política pode causar à vida de povos inteiros. Desde o afundamento do Prestige (2002), passando pela mentira gorada de fazer acreditar que os atentados de Atocha (2004) haviam sido efetuados pela ETA e não pelo terrorismo islâmico, às fortes suspeitas de ligação a dinheiros malparados do PP, o percurso de Rajoy é o de um político profissional agarrado morbidamente à sua ambição de mando. Mas o que aconteceu na Catalunha bateu no fundo da indignidade. A invocação da legalidade por Madrid faria sentido para avaliar os limites das consequências práticas do referendo depois de realizado, mas nunca para colocar polícias a agredir gente cujo único "crime" foi o de querer participar no ato mais sagrado da democracia representativa, aquele que simboliza, pelas urnas, a realidade da vontade geral..A violência, para ser aceitável, tem de emanar de um poder legítimo que saiba justificar o seu uso proporcionado. A violência de Rajoy é injustificável. Revela a fragilidade e não a força do Estado espanhol. Em poucos dias e horas, as décadas de múltiplos esforços de reconciliação entre os espanhóis - depois da Guerra Civil e do franquismo - foram fortemente danificados. Num ápice, em toda a Espanha, começam a sangrar feridas antigas que se julgavam cicatrizadas. As vozes sensatas falam de uma reforma federal na Constituição espanhola. Na verdade, como aqui já escrevi muitas vezes, o federalismo serve para conciliar potenciais inimigos. Contudo, é demasiado cedo para saber se depois do escandaloso dia 1 de outubro já não será demasiado tarde, mesmo para o federalismo. Na tomada do Forte Sumter não morreu ninguém, mas isso abriu as portas à maior tragédia americana.