A Europa à espera de Godot

Samuel Beckett (1906-1989), o conhecido dramaturgo irlandês que publicou em 1952 a sua famosa obra-prima do teatro do absurdo, À Espera de Godot, deveria ser oficialmente considerado como o patrono literário de todos aqueles que escrevem e comentam os temas da União Europeia (UE). Os últimos acontecimentos na Alemanha levantam muito seriamente a possibilidade de a UE ter entrado numa absurda vertigem, que emudece ou afasta do caminho todos aqueles que acreditam que ainda vamos a tempo de inverter a tendência para a fragmentação e a discórdia, particularmente acentuadas a partir de maio de 2014, com o sucesso das forças populistas nas eleições europeias. No dia 7 de fevereiro, depois de 13 dias de negociações exaustivas, foi tornado público em Berlim um texto de 177 páginas, acordado entre os três partidos que se espera venham a formar uma nova Grande Coligação (CDU, CSU e SPD). Com curiosidade, fui ler o programa, com especial atenção para a parte relativa à Europa. Para ter uma melhor perspetiva, fui consultar o acordo de 2013, que serviu de base ao anterior governo, também de grande coligação, e igualmente liderado por Merkel. Em 2013, a Europa aparecia num remoto sexto capítulo, mas com oito páginas densas e cheias de propostas afirmativas, que refletiam a então inabalável confiança alemã na bondade da política de austeridade que Berlim impôs como remédio universal para a crise do euro. Em 2018, pelo contrário, a Europa aparece logo no título: "Um novo começo para a Europa". Mais ainda, a Europa ocupa logo o primeiro capítulo. Contudo, são apenas quatro páginas de letra gorda, cheias de declarações onde o entusiasmo europeísta e a indeterminação de objetivos concretos seguem a par e passo. A única passagem mais clara desse contrato de governo é a que refere a intenção de transformar o atual Mecanismo Europeu de Estabilidade num Fundo Monetário Europeu, com controlo parlamentar, num claro eco de uma das propostas do presidente francês. Mesmo assim, o saldo parecia-me positivo. A alternativa anterior, a da coligação Jamaica (CDU. CSU, FDP e Verdes), impediria qualquer renovação do eixo entre Paris e Berlim, pois o partido liberal alemão opunha-se a qualquer reforma da zona euro. O programa de dia 7, mesmo nos seus limites e na sua vagueza, poderia abrir um debate europeu tendente à correção dos erros matriciais da união monetária, criando, entre outras propostas de melhoria, um orçamento comum para os países do euro, coordenando também as políticas orçamentais dos Estados, no sentido de impedir que o preço das sãs finanças públicas continue a ser a redução do investimento, do emprego e do Estado social.

Já se sabia que o acordo precisaria do voto favorável dos 460 mil militantes do SPD, que será conhecido a 4 de março. Contudo, o que não se esperava era o atropelo do formal processo político alemão pela explosão pulsional de uma telenovela sul-americana. Apesar de ter conseguido para o SPD os ministérios mais importantes, incluindo o das Finanças, Schulz passou, em escassas horas, de vencedor negocial a defenestrado político. Perdeu a direção do partido, um lugar no potencial governo, e viu a sua honra manchada pelo ataque de carácter que lhe moveu Sigmar Gabriel, acusando-o de lhe querer roubar a prometida pasta dos Negócios Estrangeiros. A única coisa que aparenta ser certa hoje é que o futuro comum da Europa preocupa menos os atores políticos do que a gestão das suas carreiras. A reforma da zona euro parece ser, à semelhança do Godot de Samuel Beckett, o objeto de uma espera inútil.

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