Memórias (re)incendiadas

Quem paga impostos, e não são poucos, não pode sentir-se totalmente desprotegido de cada vez que deflagra um incêndio. Nem em Portugal nem na Grécia. O que os nossos olhos viram acontecer em Atenas, desde segunda-feira, foi o terror. Entre os portugueses, de imediato se reacenderam as memórias dos grandes fogos de junho e outubro do ano passado.

Na Grécia, à hora em que esta crónica foi escrita, foram contabilizadas 74 mortes e uma centena de feridos, entre os quais 16 crianças. E há sempre várias justificações para os incêndios: os ventos fortes e com mudanças de direção constantes, as temperaturas altas e, provavelmente, o fogo posto.

Ontem, Atenas declarou três dias de luto nacional. Cai bem, consola a dor, mas nada resolve. O mal está feito e a sensação (que os portugueses já conhecem bem) de total impotência e de falta de proteção por parte do Estado não se altera. Pelo contrário, queima-nos as entranhas.

Considero que há aspetos de soberania que os Estados têm de garantir, como a segurança dos cidadãos. Um Estado pode fazer muitos cortes, ativar muitos planos da troika, decidir implementar muitas cativações, mas não pode - sob pena de deixar de existir enquanto Estado - abdicar de garantir as suas funções essenciais.

Na Grécia, fugir para o mar foi o que salvou muitas vidas. Em Pedrógão Grande não havia mar... E ainda que o mar possa ser uma salvação, a imagem de fugir mar adentro, em alguns casos a pé, é uma imagem de desespero, não de futuro ou de esperança. E é o que nos pode restar, no futuro, se a política florestal não for levada a sério de uma vez por todas, se as práticas de prevenção não passarem a constar na estratégia antes das práticas de combate aos incêndios. Enfim, se tudo continuar como sempre foi.

Neste ano, em Portugal, temos sido bafejados por um verão fresco (para pena de muitos veraneantes) que tem vindo a adiar as probabilidades de incêndios. E quando chegarmos a outubro, esse malfadado mês, estaremos preparados? Como jornalista e cidadã, gostaria de estar convencida de que a resposta é sim. Mas, para já...

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Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.