O pior do caso Raríssimas

Por esta altura, tenho a sensação de que já se acumulou mais porcaria com as reações ao caso Raríssimas do que a porcaria que o caso em si encerra. Vamos por partes.

Não é a primeira nem será, com certeza, a última vez que descobrem problemas com organizações do chamado terceiro setor. Apesar de termos passado a semana a ouvir que elas são muito fiscalizadas, a perceção geral é que isso não é inteiramente verdade: nem pelo Estado nem pelos cidadãos que contribuem individualmente para elas. E, que fique claro, não é porque se pense que o desmando é generalizado ou que não há rigor na gestão das instituições particulares de solidariedade social (IPSS), bem pelo contrário. Simplesmente, a limitada profissionalização das pessoas deste setor, a excessiva personalização das suas lideranças (evidente no caso Raríssimas) e a dupla origem dos financiamentos levam a que sejam praticamente inevitáveis problemas ou, no mínimo, situações pouco claras. No mesmo sentido, a explosão do número destas organizações provocada por necessidades que o Estado não consegui nem consegue satisfazer e pela criação de equipamentos sociais que o mesmo Estado também não consegue gerir tornou a fiscalização muito difícil.

Dado tudo isto, dado o orçamento da Raríssimas, dado o reconhecido extraordinário trabalho desta instituição, que todas as irregularidades que se tenham descoberto ou que se venham a descobrir noutras instituições tenham esta dimensão. Seja como for, nem seria preciso dizer que o que já se sabe sobre alguns aspetos da gestão da Raríssimas é inadmissível e obriga à saída de Paula Brito e Costa.

Não chegava assim a porcaria que se descobriu na gestão da Raríssimas, houve imediatamente quem contribuísse para o avolumar do chiqueiro. Podendo ser esta triste descoberta aproveitada para debater o modelo e a relação das IPSS com o Estado, para perceber onde se pode melhorar na prestação de cuidados aos cidadãos necessitados, melhorar a fiscalização, foi-se, em vez disso, criar mais uma das nossas guerrinhas patéticas político-partidárias pseudoideológicas para dar mais um passo na promoção da devassa total da privacidade e, claro, ajudar na famosa campanha contra os políticos.

Assistir à tentativa de linchamento político do ministro Vieira da Silva por este não saber das irregularidades na gestão dado que foi vice-presidente da Assembleia Geral da Raríssimas, por ter estado num evento na Suécia quando Paula Brito e Costa também estava, por uma veterana deputada do PS (relacionada com o ministro) ter viajado a convite de uma instituição sueca ou por ter recebido denúncias não relacionadas com o agora sabido sobre a instituição (que o Presidente da República apelidou de não específicas) é de bradar aos céus. Claro que se pode descobrir factos graves na conduta de Vieira da Silva, mas fazer uma campanha contra ele com base nisto é tão-só contribuir para que não venha a existir gente séria e competente para cargos políticos. Quem estará disponível para ser achincalhado com disparates destes que depois, e quem os acalenta não ignora o efeito, tomam proporções gigantes? O que os políticos que entram nestas campanhas parecem ignorar é que tudo isto lhes será devolvido em dobro e que isto só aproveita aos medíocres e pouco sérios. Pensar que quem defende, nesta situação, Vieira da Silva está a defender o governo ou o PS não percebe nada do que está em causa.

O mesmo se diga da acusação ao ex-secretário de Estado que tem sido maltratado por ter recebido uma retribuição pelo seu trabalho enquanto profissional. Falo por mim, gosto que me paguem quando trabalho. Ficamos a saber também, a propósito deste caso, que tudo o que uma pessoa faz na sua vida afeta diretamente a outra com quem tenha uma relação pessoal. Agora só falta criminalizar cônjuges ou outros parceiros por tudo o que o outro faça.

O mais absurdo argumento neste acumular de porcaria às costas deste caso é trazer a conversa da promiscuidade com o poder e das redes de influência.

Não me parece que seja necessário afirmar que Portugal tem um problema com a promiscuidade entre poderes públicos e privados, entre Estado e entidades privadas. País pequeno e pobre, pouca gente com habilitações, dezenas e dezenas de anos de controle do Estado sobre empresas e pessoas. Já aqui escrevi muitíssimas vezes sobre isto para ter necessidade de puxar galões. Mas neste caso? Nenhuma instituição do género da Raríssimas pode deixar de fazer lobbying e de tentar trazer para junto de si pessoas com importância política, económica e social. Não é, claro está, para obter vantagens indevidas, mas para mostrar o trabalho que se faz, o serviço que se presta, as pessoas que se quer ajudar. É evidente que ter o apoio de pessoas como Maria Cavaco Silva, Fernando Ulrich, Paulo Olavo Cunha, Vieira da Silva ou Teresa Caeiro é importante não só para os apoios que possam trazer mas como para a boa publicidade que trazem sendo pessoas com um papel relevante na comunidade. E, convém ser dito, nenhuma destas pessoas apoiaria esta associação se não fosse evidente o bom trabalho realizado.

Não há lugar nenhum no mundo em que não seja fundamental captar apoios, mobilizar vontades, sobretudo se se depende de recursos que têm de vir, na sua maioria, de atos de generosidade.

O pior desta história toda não são os problemas que se descobriram na Raríssimas - é não só a oportunidade, que vai ser desperdiçada, para melhoramos o terceiro setor, mas sobretudo a desconfiança que está a ser lançada sobre essas instituições e que pode afetar muito os financiamentos privados. Mas, claro, a politiquinha rasteira e o tremendismo populista são irresistíveis.

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