Os apóstolos do Pedro Guerra e Santana Lopes

O extraordinário é dizer-se que o debate não teve ideias e depois elogiar quem teve como estratégia nada fazer senão aplicar golpes baixos

1 Li nos jornais e vi em algumas televisões jornalistas, comentadores e comentadores jornalistas a afirmar que na última quinta-feira, na RTP, Santana Lopes teria ganho o debate a Rui Rio: "encostou-o às cordas", "deu um baile", "esmagou", "KO técnico".

Claro que este tipo de análise diz muito sobre quem analisa ou, pelo menos, sobre os critérios que utiliza.

Pelos vistos, quem diz que Santana venceu o debate acha que este provou que o seu governo não tinha feito trapalhadas nenhumas, que Jorge Sampaio foi um malandro em ter corrido com ele e que Sócrates conquistou uma maioria absoluta por obra e graça do Espírito Santo. Esses analistas também valorizaram aquela jogada de fino recorte ético que foi Santana ter falado de uma entrevista de Rio um mês depois de aquele ter sido nomeado primeiro-ministro, logo, e por definição, antes das trapalhadas e em que, claro está, Rio teria elogiado o companheiro de partido. Devem, certamente, ter achado uma verdadeira jogada de mestre a exibição de fotografias em que Rio aparecia na Associação 25 de Abril a dar uma palestra - presumo que, como Santana, também achem que a associação é uma organização de malfeitores a evitar a todo custo. E, genialidade das genialidades, adoraram com certeza a habilidade de responsabilizar Rui Rio pelas opiniões de Pacheco Pereira, um autêntico "encostar às cordas" como disse um jornalista. Devem ter adorado o facto de Santana ter mostrado que Rio fala com adversários políticos e que, oh erro fatal, é capaz de estabelecer compromissos com gente de outros partidos, até, imagine-se, consegue assinar cartas em conjunto com outros presidentes da câmara para tratar de assuntos que interessam aos municípios que governam. E que engenho o de Santana Lopes que foi capaz de há uma semana ter dito que achava que o financiamento partidário devia ter todo origem privada e na quinta-feira mudou de opinião sem que ninguém tivesse dado por nada. "Santana deu um baile", alguém disse. Deve ter sido por Santana Lopes ter mostrado preocupação com a segurança do país, nomeadamente a enorme problemática das caixas multibanco.

A assuntos como o gigantesco problema que temos com a justiça e com o funcionamento do Ministério Público e à forma como Rui Rio, de forma corajosa e impopular, o abordou não foi dada qualquer importância; à coerência da sua opinião sobre financiamento partidário - também impopular - não foi dado qualquer destaque. Rio só mereceu elogios quando cedeu ao método santanista de debate e falou de uma vontade de o antigo provedor da Santa Casa Misericórdia de Lisboa, velha de 1996, fazer um novo partido. Claro que lhe correu mal, como correrá sempre que tente fazer este tipo de truques: quem tem limites nunca conseguirá debater a esse nível com quem os não tem.

Era capaz de jurar que todas as pessoas que vi e li a garantirem que Santana Lopes ganhou o debate através destas habilidades rasteiras já vociferaram contra o baixo nível que a política está a atingir, já se insurgiram contra a falta de substância no debate político, já fizeram apelos arrebatados a favor da necessidade de se falar de temas que dizem respeito à vida da comunidade. Depois olham para um debate como se de um combate de boxe se tratasse. Pior, um combate em que valem golpes baixos e em que se decreta como vencedor quem se está a borrifar para assuntos relevantes e aposta na falta de ética e em conversa de sarjeta. Não vi nem li críticas (como é evidente, admito que tenham existido exceções) ao tipo de discurso de Santana Lopes, àquele nunca acabar de jogadas baixas e de remoques provocatórios. Vi, sim, elogios ao método, à forma como Santana levou o debate para "ali", ou seja, para o lodo.

Curiosamente, estes elogios ao ex-presidente do Sporting e aos seus métodos coexistiram, em muitas análises, com uma apreciação negativa do debate. E aí não posso deixar de concordar. De facto, o debate foi muito fraco. Nada ou pouco de substancial se discutiu sobre o país e sobre as ideias dos candidatos (repito que apenas Rui Rio disse alguma coisa de relevante e com significado). Mas o extraordinário é dizer-se que o debate não teve ideias e depois elogiar quem teve como estratégia nada fazer senão aplicar golpes baixos, falar de irrelevâncias e fazer insinuações.

É legítimo pensar que as caixas de comentários de jornais e as bocas tuiteiras e facebookianas chegaram definitivamente à análise política ou então está tudo rendido ao formato de debate desportivo e o estilo do comentador Pedro Guerra é o exemplo a seguir nos debates políticos.

2 Não é só no entendimento do que é a política ou do que deve estar em causa num debate que anda uma confusão enorme por aí. Há também uma febre estranha na agenda mediática. Francamente, não sei se é consequência do demasiado consumo por parte dos jornalistas das redes sociais ou não, mas que começa a ser recorrente fazer-se um escândalo com banalidades parece evidente.

A mais recente é o escândalo Centeno e os bilhetes para o futebol. Um ministro, que não pode ir para um lugar normal num estádio (não insultarei a inteligência de ninguém tentando explicar), pede a um clube dois bilhetes para ver um grande jogo num local seguro e está montado um escândalo. Que um jornal com tendência para montar casos tente fazer disto uma notícia ainda se entende, mas assistir a noticiários em televisões generalistas a fazer desta irrelevância segunda notícia do alinhamento é de bradar aos céus.

Não sei a quem este tipo de "notícias" aproveita, mas sei a quem prejudica: ao jornalismo e à respeitabilidade e à credibilidade dos jornalistas.

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